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Artículos
Mujeres,
homosexualidades y salud:
Visibilizando demandas e caminos
Por Regina Facchini
Apresentação
O crescimento da preocupação científica com a questão da sexualidade a
partir dos anos 90, bem como os avanços observados em relação à afirmação
dos direitos sexuais e reprodutivos e o crescimento da visibilidade das
demandas do movimento lésbico nos últimos anos, são fatores que têm influenciado
um aumento das preocupações em torno da saúde de mulheres apresentadas
na literatura como “lésbicas” ou “mulheres que fazem sexo com mulheres”.
Este texto pretende retomar criticamente alguns aspectos da literatura
internacional dedicada ao tema e contribuir para essa discussão através
da apresentação de dados de pesquisas brasileiras e internacionais e da
proposição de alguns rumos para a ação.
Problemas envolvendo a definição da população
Um primeiro ponto a ser examinado na literatura está relacionado à variabilidade
no modo de definir a população base dos estudos. Nesse sentido, há basicamente
dois grandes grupos: os que tomam por base a categoria “lésbica”, explicitando
posteriormente a que se refere a categoria – identidade ou comportamento
sexual - e os que enfatizam o comportamento, referindo-se a “mulheres
que fazem sexo com mulheres” e distinguindo mulheres com comportamento
exclusivamente lésbico e mulheres com comportamento bissexual no desenho
da pesquisa. Nesse sentido, é digno de nota que existam trabalhos recentemente
publicados[1] para afirmar
a disjunção entre comportamento e identidade e a importância de que profissionais
de saúde procurem conhecer a trajetória/história sexual das mulheres.
Ao mesmo tempo, há pesquisadores que apontam “lésbicas” como uma população
única e subatendida no sistema de saúde[2] e que criticam o uso de termos
“neutros” como “mulheres que fazem sexo com mulheres” por obscurecerem
dimensões sociais da sexualidade, não descreverem suficientemente as variações
do comportamento sexual e fazerem referência a comportamentos em detrimento
de identidades, redes sociais e comunidades em que se inserem[3].
Outra questão que pode ser relacionada a esta é o fato de que alguns estudos
tomem a categoria “lésbica” ou “MSM” de forma isolada de outras características
da população estudada, não se preocupando com a intersecção entre a orientação
sexual e fatores como raça, classe, escolaridade, idade, história/trajetória
sexual e reprodutiva e o que se chama eventualmente de gramática corporal
ou atributos/expressão de gênero.
Vários estudos e a experiência concreta de muitas ativistas apontam para
o impacto de convenções heteronormativas e da invisibilidade das demandas
de mulheres lésbicas e bissexuais sobre a capacidade das políticas, serviços
e profissionais de saúde atenderem adequadamente a essas mulheres, bem
como dessas mulheres adotarem práticas de cuidado à saúde. No entanto,
é preciso que a necessidade de visibilizar demandas não tome tal população
como entidade discreta e essencial e suprima o conhecimento adequado do
impacto da intersecção de outras características no interior da mesma,
sob pena de construirmos políticas para sujeitos hiper-reais.
Um olhar sobre a literatura
A literatura internacional, com predominância de estudos realizados nos
Estados Unidos, Inglaterra e Canadá, é bastante útil e importante, sobretudo
na medida em que estudos com essa população não estão disponíveis em outras
localidades. No entanto, é importante considerar o impacto de fatores
sócio-culturais diferenciados sobre os resultados afirmados, que apontam,
em boa medida, para a necessidade de realização de estudos locais.
Esses estudos indicam especificidades em relação a câncer de mama
e de colo, de útero, abuso de álcool e drogas ilícitas,
doenças sexualmente transmissíveis e transmissão do HIV. As pesquisas
que se debruçam sobre os cuidados à saúde indicam baixa proporcionalidade
do exame de papanicolaou e de exames preventivos ao câncer de mama[4].
As razões apontadas para tal perfil sugerem que essas mulheres enfrentam
problemas com relação à discriminação e que nem sempre procuram tratamento
quando necessitam, só o fazendo quando surgem sérios problemas e em períodos
de maiores agravos à sua saúde[5].
Não me deterei aqui em fatores a serem investigados em contextos sócio-culturais
específicos, como tabagismo, uso de álcool ou drogas ilícitas, obesidade
ou comportamentos sexuais que tendem à prática com homens não-heterossexuais.
As demandas relativas à saúde mental são também bastante presentes nos
estudos e baseiam-se sobretudo no contexto sócio-cultural, dada a relação
direta entre tais demandas e ocorrências de preconceito, discriminação
e violência com o sujeito ou ao seu redor[6].
A violência no interior dos casais é algo que merece atenção, especialmente
porque é uma realidade passível de ser invisibilizada, na medida em que
o enfoque da violência contra a mulher muitas vezes prioriza uma visão
em que o homem aparece como potencial agressor. Há dados internacionais
que apontam uma prevalência semelhante de comportamentos abusivos e violentos
entre casais hetero e homossexuais e recomendações para que profissionais
de saúde mental e de serviços de atendimento a vítimas de violência tomem
isso em consideração[7].
Há também um estudo brasileiro de natureza antropológica que, se propondo
inicialmente a estudar maternidade entre lésbicas, confrontou-se com a
necessidade de compreender as relações violentas que se verificavam entre
mulheres lésbicas, familiares, ex-parceiros e atuais parceiras[8].
Dados produzidos a partir de estudos realizados nas Paradas do Orgulho
GLBT brasileiras têm chamado atenção também para o tipo de vitimização
que atinge às mulheres homossexuais: ao contrário de homens e travestis
que tendem a sofrer discriminação e violência causadas em maior parte
por desconhecidos ou parceiros sexuais eventuais, as mulheres tendem a
ser atingidas majoritariamente em relações interpessoais com familiares,
vizinhos e amigos, reafirmando as dinâmicas silenciosas e interativas
que predominam na vitimização feminina[9].
Alguns dados relativos à saúde ginecológica são os mais facilmente generalizáveis.
A nuliparidade, a obesidade e o tabagismo têm sido indicados na literatura
como fatores de risco para o câncer de mama, bastante prevalentes na população
descrita como “lésbica” [10].
Estudos que dão suporte à afirmação da necessidade de oferecer e garantir
a mesma periodicidade de realização de exames de papanicolaou às mulheres
homossexuais, inclusive as de comportamento exclusivamente lésbico, do
que o preconizado para mulheres heterossexuais[11] são dignos de nota. Achados
sobre HPV entre mulheres que relataram nenhum contato sexual anterior
com homens têm levado a afirmar sua transmissibilidade em relações sexuais
entre mulheres[12]. Dados sobre citologias oncóticas
anormais também têm sido descritos mesmo entre mulheres que nunca tiveram
sexo com homens[13].
A transmissibilidade de DST entre mulheres é apontada também em relação
à vaginose bacteriana, comum entre mulheres que fazem sexo com mulheres
e freqüentemente encontrada em ambas as parceiras de casais monogâmicos[14].
Marrazo[15] afirma que
tem sido reportada transmissão sexual de HPV, HIV[16], Treponema pallidum e trichomonas
entre mulheres[17] e que
é fundamental que ações educativas voltadas a mulheres lésbicas e seus
cuidadores enfatizem que não há ausência de risco de transmissão de DST
no sexo entre mulheres. A necessidade de assistência e informação adequada
sobre práticas de prevenção no sexo entre mulheres para MSM soropositivas
são referidas por Arend[18]
e têm sido uma preocupação recorrente nas ocasiões em que pude conversar
com profissionais que atendem população soropositiva em congressos nacionais
e regionais no Brasil.
Saúde sexual e reprodutiva, prevalência de DST e comportamentos de
risco: dados brasileiros
Um primeiro estudo brasileiro sobre prevalência de DST e comportamentos
de risco entre mulheres que fazem sexo com mulheres[19], realizado em São Paulo com
uma amostra de conveniência de 145 mulheres, aponta a presença de comportamentos
considerados de risco como: múltipla parceria; troca de sexo por bens
ou dinheiro; uso inconsistente de preservativos nas relações sexuais com
homens; sexo com parceira menstruada; compartilhamento de acessórios sexuais
sem preservativos e uso de psicoativos na população, além de quase 40%
de mulheres com história prévia de DST.
Entre as participantes, 3,3% nunca foram ao ginecologista e 17,9% nunca
tinham feito papanicolaou, ao passo em que 46,9% iam ao ginecologista
anualmente. Os dados relativos à prevalência de vaginose bacteriana, tricomoníase,
clamídia e HPV se aproximam dos relatados na literatura internacional,
as sorologias positivas para hepatite B e C foram de 7,0 e 2,1% respectivamente
e, para o HIV, 2,9%. Esse estudo reforça a necessidade de ações educativas
entre profissionais e mulheres que desfaçam a suposição, fortalecida por
interpretações do histórico da epidemia do HIV, de que o sexo entre mulheres
não oferece riscos e que enfatizem a necessidade de exames ginecológicos
periódicos independente da orientação sexual da mulher.
Um estudo conduzido por mim e Regina Barbosa entre 2003 e 2004 em São
Paulo, com 22 entrevistas em profundidade entre mulheres que fazem sexo
com mulheres de 18 a 45 anos[20], indica uma maior dificuldade em acessar cuidados ginecológicos
entre mulheres que nunca tiveram sexo com homens, que possuem uma gramática
corporal masculinizada ou que pertencem a segmentos sócio-econômicos mais
baixos. Os resultados apontam a necessidade de que a anamnese em consultas
ginecológicas não pressuponha a heterossexualidade das mulheres e de que
o profissional investigue suas trajetórias sexuais e reprodutivas a fim
de evitar pressuposições ligadas a estereótipos sobre a lesbianidade.
Apontam, também, a necessidade de que os profissionais de saúde sejam
preparados para não pressupor ou naturalizar a heterossexualidade e para
criar um ambiente de confiança, a fim de que MSM possam estar à vontade
para falar mais abertamente sobre sua sexualidade expor suas inquietações.
As entrevistas indicaram que é preciso que profissionais tenham cuidado
ao lidar com categorias de classificação presentes na população, uma vez
que o referente de palavras como “lésbica” ou “bissexual” pode não ser
o mesmo para o profissional e para sua interlocutora. A consulta ginecológica
aparece como um momento de tensão para a maior parte das MSM e é referida
como locus de exposição da intimidade física e comportamental,
sendo que muitas possuem fantasias a respeito de que seu corpo possa de
algum modo denunciar suas práticas eróticas desvalorizadas socialmente.
A justificativa mais importante para não ir ao ginecologista foi a “ausência
de necessidade” associada a representações do ginecologista como "médico
que trata de questões ligadas ao sexo com homens e reprodução" e
a do ginecologista como "médico que trata de DST".
As representações acerca de riscos à saúde sexual e reprodutiva tendem
a enquadrar as relações com mulheres como algo que libera do risco de
gravidez indesejada e de DST, muitas vezes citadas como “doenças provenientes
do homem”, que aparecem em boa parte das entrevistas como necessariamente
promíscuos e moralmente desvalorizados. No que diz respeito à prevenção
às DST, a hierarquização de práticas que poderiam implicar maior risco
não é comum a todas as entrevistadas, concentrando-se entre as que possuem
mais informações e maior preocupação com a questão da Aids.
Essa hierarquização concentra-se especialmente em práticas em que há troca
direta de fluídos genitais (contato entre genitais) ou contato entre boca
e região genital, e usa por referência as informações sobre prevenção
ao HIV disseminadas nos meios de comunicação e cartilhas de prevenção.
Assim como já descrito na literatura sobre prevenção às DST/Aids em outras
populações, a restrição de práticas consideradas de maior risco deixa
de ser adotada na medida em que sentimentos de confiança e intimidade
entram em cena no relacionamento.
Poucas entrevistadas relataram acesso a informações específicas sobre
prevenção às DST/Aids entre mulheres, sendo que algumas – sobretudo as
mais velhas e que mantêm relações sexuais exclusivamente com mulheres
– sequer manifestaram qualquer demanda de informação nesse sentido. Entre
as que tiveram acesso a informações e citaram insumos como barreiras ou
luvas, nenhuma considera viável sua utilização cotidiana.
Recomendações
Pela complexidade das situações aqui apresentadas, pode-se perceber que
não se trata de propor soluções unilaterais, ou seja, que abordem apenas
os profissionais ou apenas as pacientes.
Em acordo com o que eu, Maria Luiza Heilborn e Regina Barbosa sugerimos
anteriormente[21], creio
que as medidas para mudar tal situação e visibilizar essa população e
suas demandas só alcançarão resultado se forem concebidas de modo integrado.
Nesse sentido, deve haver uma ação articulada entre atores dos movimentos
feminista e lésbico, pesquisadores e profissionais e técnicos na área
da saúde, a partir de medidas como: a inclusão do quesito orientação sexual
em fichas médicas; o financiamento de pesquisas rápidas e com divulgação
dos resultados para subsidiar a prática clínica dos profissionais; a organização
de seminários para divulgação de estudos e avaliação de experiências em
serviços de saúde; a produção e veiculação de campanhas de comunicação
contra o preconceito e informando direitos.
Por outro lado, deve-se apoiar os movimentos que lutam contra as barreiras
culturais ao reconhecimento dos direitos dos sujeitos com práticas não-heterossexuais
e promover a capacidade de vocalização dos direitos das mulheres que fazem
sexo com mulheres. No entanto, o mais importante é que, ao propor qualquer
estratégia de inclusão dessas mulheres nos serviços ou políticas tendo
em vista suas demandas, leve-se em conta a diversidade desse “segmento”
e se evite responder ao preconceito e/ou à invisibilidade com a construção
de um corpo ou sujeito de direitos hiper-real.
Nota do autora
Agradeço a Regina Maria Barbosa, responsável por parte da revisão de literatura
presente aqui, e a Isadora Lins França, que discutiu e revisou este texto.
Notas
[1] Ver: BAILEY, J. V et al. Sexual behaviour of lesbians
and bisexual women. Sex Transm Infect 79(2), p. 147-50, 2003;
DIAMANT, A. et al. Lesbians sexual history with men: implications for
taking a sexual history. Arch Intern Med 159(22), p. 2730-6, 1999.
[2] McNAIR, R. Outing lesbian health in medical education.
Women Health 37(4), p. 89-103, 2003.
[3] YOUNG, R. M.; MEYER, I. H.. The Trouble with "MSM"
and "WSW": Erasure of the Sexual-Minority Person in Public Health
Discourse. American Journal of Public Health. 95 (7), p. 1144-9,
2005.
[4] DEEVY, S. J. Op cit ; DENENBERG, R. A History
of the Lesbian Health Movement. In: MARTINEZ, M. C.; WHITE, J. C. (Ed.).
The Lesbian Health Book: caring for ourselves. Seattle: Seal Press,
1997. p. 3-22. ; DIAMANT, A. L et al. Op cit.
[5] O’HANLAN, K. A. Lesbian health and homophobia: perspectives
for the treating obstetrician/gynecologist. Current Problems in Obstetrics
and Gynecology, n. 18, p. 93-136, July/Aug. 1995.
[6] KING, M. et al. Mental health and quality of life
of gay men and lesbians in England and Wales: controlled, cross-sectional
study. Br J Psychiatry 183, 2003, p. 552-8 ; MEYER, I. H. Prejudice,
social stress, and mental health in lesbian, gay, and bisexual populations:
conceptual issues and research evidence. Psychol Bull 129(5), 2003,
p. 674-97.
[7] BURKE, L. K.; FOLLINGSTAD, D. R. Violence in lesbian
and gay relationships: theory, prevalence, and correlational factors.
Clin Psychol Rev, 19(5), p. 487-512, 1999.
[8] SOUZA, E. R. Necessidade de filhos: maternidade,
família e (homo) sexualidade. 2005. Tese (Doutorado em Ciências Sociais)
– Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade de Estadual
de Campinas, Campinas.
[9] CARRARA, S.; RAMOS, S. Política, direitos, violência
e homossexualidade. Pesquisa 9ª Parada do Orgulho GLBT – Rio 2004.
Rio de Janeiro: CEPESC, 2005.
[10] HAYNES, S. Breast cancer risk: comparisons of
lesbians and heterosexual women. In: BOWEN, D. J. Cancer and Cancer
Risks Among Lesbians. Seattle: Fred Hutchinson Cancer Research Center
Community Liaison Program, 1995. ; ROBERTS, S. A. et al. Differences on
risk factors for breast cancer: lesbian and heterosexual women. Journal
of the Gay and Lesbian Medical Association, San Francisco, v. 2, n.
3, p. 93-101, 1998.
[11] MARRAZZO, J. M. Genital human papillomavirus infection
in women who have sex with women: a concern for patients and providers.
AIDS Patient Care STDS, 14(8), p. 447-51, 2000 ; MARRAZZO, J. M.,
STINE, K.; KOUTSKY, L. A. Genital human papillomavirus infection in women
who have sex with women: a review. Am J Obstet Gynecol, 183(3),
2000, p. 770-4; MARRAZZO, J. M et al. Papanicolaou test screening and
prevalence of genital human papillomavirus among women who have sex with
women. Am J Public Health, 91(6), p. 947-52, 2001.
[12] Marrazo, 2000, Op.
cit.
[13] FERRIS, D.G. et al. A neglected lesbian health
concern: cervical neoplasia. The Journal of Family Practice; v.
43, n. 6, p. 581-584, Dec. 1996 ; BAILEY, J. V. et al. Lesbians and cervical
screening. The British Journal of General Practice, v. 50, n. 455,
p. 481-482, jun. 2000.
[14] A vaginose bacteriana entre MSM tem sido associada
a comportamentos como ter múltiplas parceiras sexuais ao longo da vida,
compartilhamento de dildos sem proteção e ter sexo anal-oral com mulheres
e há suporte a hipóteses de transmissão através de troca de secreção vaginal.
Para mais informações ver: MARRAZZO, J. M. et al. Characterization of
vaginal flora and bacterial vaginosis in women who have sex with women.
J Infect Dis, 185(9) , p. 1307-13, 2002.
[15] MARRAZZO, J. M. Barriers to infectious disease
care among lesbians. Emerg Infect Dis 10(11), p. 1974-8, 2004.
[16] KWAKWA, H.
A.; GHOBRIAL, W. M. Female-to-Female Transmission of
Human Immunodeficiency Virus. Clinical
Infectious Diseases, Chicago, v. 36, n. 3, p. 40-41, feb. 2003.
[17] Sobre a transmissão de trichomonas, herpes
e verrugas genitais entre mulheres que nunca tiveram sexo com homens ver:
Bailey, J. V. et al. Sexually transmitted infections in women who have
sex with women. Sex Transm Infect 80(3) , p. 244-6, 2004.
[18] AREND, E. D. The politics of invisibility: HIV-positive
women who have sex with women and their struggle for support. J Assoc
Nurses AIDS Care. 14(6), p. 37-47, 2003.
[19] PINTO, V. M. Aspectos epidemiológicos das doenças
sexualmente transmissíveis em mulheres que fazem sexo com mulheres.
2004. Dissertação (Mestrado em Saúde Pública) – Faculdade de Saúde Pública,
Universidade de São Paulo, São Paulo.
[20] Trata-se da pesquisa Mulheres, Cuidados à Saúde,
Gênero e Diversidade Sexual, cujo conjunto de entrevistadas foi composto
de forma a conter diversidade em termos de raça/cor, escolaridade, inserção
profissional, idade, gramáticas corporais, identidades sexuais e experiência
de maternidade e/ou de sexo com homens ou não em diferentes momentos da
vida. Para dados publicados ver: FACCHINI, R. Mulheres, diversidade
sexual, saúde e visibilidade social. In: RIOS, L. F. et al (orgs).
Homossexualidade: produção cultural, cidadania e saúde. Rio de
Janeiro: ABIA, 2004. p. 34-43.
[21] HEILBORN, M. L.; FACCHINI, R.; BARBOSA, R.
M. Public Health and Human Rights: policies on sexual diversity. In:
SEXUALITY AND REPRODUCTIVE HEALTH LEARNING GROUP. Learning to Dance:
Bringing Together the Fields of Public Health and Human Rights to Promote
Women's Well-Being. New York: Ford Foundation, 2003.
p. 151-160.
Sobre
la autora
Regina Facchini. Doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP), São Paulo, Brasil.
Endereço de email: rfacchini@uol.com.br
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Método
cien por ciento garantizado.
Prácticas de sexo seguro en las relaciones homoeróticas
entre mujeres de segmentos medios en Porto Alegre
Por Nádia Elisa Meinerz
Resumo:
Esse artigo aborda as práticas de sexo seguro e os significados a elas
associados no contexto das relações homoeróticas entre mulheres. Ele parte
de uma pesquisa etnográfica realizada com mulheres pertencentes às camadas
médias da população na cidade de Porto Alegre (Rio Grande do Sul, Brasil).
A análise dos dados referentes à relação com os profissionais de saúde
e a preocupação com sexo seguro aponta para uma banalização das doenças
sexualmente transmissíveis, relacionada a uma expectativa de fidelidade
conjugal e a não associação das práticas entre mulheres com a transmissão
de HIV.
Entre Mulheres
Essa reflexão resulta de uma pesquisa etnográfica sobre homossexualidade
feminina que resultou na dissertação intitulada: “Entre Mulheres - Estudo
Etnográfico sobre a constituição da parceria homoerótica feminina entre
mulheres de camadas médias na cidade de Porto Alegre”[1].
A abordagem teórica da dissertação parte da discussão de Foucault (1979)
na qual ele discute a sexualidade a partir das práticas e significados
que historicamente se relacionam ao corpo e aos seus prazeres. A partir
da proposta desse autor, entendo que o estudo da sexualidade não deve
estar pautado pela busca de uma verdade sobre a sexualidade dos indivíduos,
e sim pela análise das diferentes possibilidades de relacionamentos sexuais
e afetivos entre mulheres. A partir dessa abordagem, desloco o interesse
do estudo das identidades relacionadas à sexualidade para o estudo das
práticas envolvidas constituição da parceria sexual e afetiva entre mulheres,
enfocando as diferentes formas de enunciação das relações homoeróticas.
Em termos empíricos isso implica que a pesquisa abarcou desde mulheres
que reivindicam politicamente a designação lésbica ou se identificam com
a noção de homossexualidade até aquelas que não se reconhecem nestas designações
ou em quaisquer outras que tomem como referência as suas práticas sexuais.
A pesquisa foi desenvolvida entre junho de 2003 e setembro de 2004 e consistiu
no acompanhamento dos momentos de sociabilidade pertencentes a quatro
diferentes redes de relações, através da técnica de observação participante.
Além disso, realizei entrevistas semi-estruturadas com dez mulheres acessadas
através das redes[2]. As entrevistas exploraram especificamente questões
relacionadas à trajetória afetivo sexual das mulheres, suas preferências
de sociabilidade e lazer, busca de parcerias, conjugalidade, práticas
sexuais e cuidados corporais.
Embora a questão da saúde, especificamente, não tenha sido o problema
sobre o qual me dediquei durante a elaboração da dissertação, a temática
do sexo seguro surgiu como uma instigante provocação em meio aos dados
coletados, para a reflexão a esse respeito. Analiso, nesse artigo, as
possibilidades de sexo seguro e os seus significados no contexto das relações
homoeróticas entre mulheres.
A relação com os profissionais de saúde
Nádia: Tu costumas ir ao ginecologista?
Rosana: Sim, vou pelo menos uma vez por ano. Nádia: E o
teu ginecologista sabe que tu te relacionas com mulheres?
Rosana: É ela, agora é uma mulher, mudei faz dois anos, antes era um
homem, mas eu sempre falei pra todos. É sempre a mesma história: qual
é o anticoncepcional que você usa? Nenhum. Nenhum!? É nenhum. [risadas]
Dessa vez foi até divertido, eu falei pra ela que eu não precisava que
ela me receitasse nenhum método porque o meu método é cem por cento garantido.
O diálogo com Rosana[3], uma mulher de trinta e nove anos sintetiza
alguns traços comuns às relações das mulheres entrevistadas com os profissionais
da área da saúde sexual e reprodutiva. A possibilidade de uma recusa da
freqüência ao ginecologista era uma hipótese e que já nas minhas primeiras
conversas com as mulheres era rebatida pela idéia de que só as lésbicas
ignorantes[4] podiam
acreditar que se relacionar apenas com mulheres trazia uma isenção das
preocupações com a saúde.
Essa percepção, embora deva ser analisada tendo em vista trajetória das
mulheres entrevistadas. Dentre dez, nove começaram a freqüentar o ginecologista
na época em que se relacionavam com homens e, apenas uma delas, que menciona
apenas relações com mulheres, comenta que sua mãe a levava ao médico porque
pressupunha que ela tivesse relações com homens.
Nesse sentido, Fachini (2004) a partir de uma pesquisa realizada entre
mulheres que fazem sexo com mulheres em São Paulo descreve a existência
de um duplo padrão de relacionamento com o sistema de saúde. Por um lado
“ser masculina”, não ter tido (ou ter tido poucas) experiência sexuais
com homens na vida, recusar a possibilidade de maternidade biológica e
ter ido poucas vezes aos serviços de saúde ginecológicos; e por outro
lado, ser “mais feminina”, entrar em contato com os serviços de saúde
tendo em vista as relações heterossexuais e/ou à maternidade, e, ter uma
maior preocupação/adesão aos cuidados com a saúde sexual e reprodutiva.
Embora os dados coletados permitam uma complexificação da oposição estabelecida
pela autora entre “ser masculina” e “ser feminina”, me parece importante
reter que, a partir da proposta de Fachini, minhas informantes constituem
um exemplo do segundo grupo descrito, ou seja, entraram em contato com
os profissionais da área da saúde sexual e reprodutiva a partir de suas
relações heterossexuais ou da pressuposição destas.
O questionamento sobre métodos contraceptivos como uma primeira forma
de abordagem a uma paciente evidencia a pressuposição de que todas as
mulheres têm apenas práticas heterossexuais. Segundo Rich (1999), essa
seria uma manifestação da heterossexualidade compulsória, a qual opera
uma legitimação da heterossexualidade como norma para as mulheres, pela
desconsideração da existência lésbica. Apesar de concordar com a proposição
da autora, considero necessário problematizar essa noção de existência
lésbica. A argumentação construtivista defende que a sexualidade não é
fixa, podendo variar inclusive ao longo da vida dos indivíduos (Loyola:1999).
A trajetória afetivo-sexual do grupo estudado evidencia que não há uma
coerência de práticas sexuais que possa definir uma existência lésbica.
Nesse sentido, a maior parte das mulheres entrevistadas, mesmo se relacionando
preferencialmente com mulheres não avaliam negativamente suas relações
anteriores com homens, bem como não descartam a possibilidade de ter relações
heterossexuais.
Em relação à comunicação das práticas com mulheres aos profissionais de
saúde, do total, quatro mulheres não contaram ao ginecologista sobre suas
práticas homoeróticas alegando não sentirem necessidade de fazê-lo. Entre
as demais, três disseram comunicar sua preferência sexual ao profissional
de saúde para diminuir a lista de perguntas que elas entendiam não lhes
dizer respeito. Duas comentam que tiveram a iniciativa de contar ao médico
porque consideraram importante que ele soubesse do seu envolvimento com
mulheres e uma mulher teve de contar pelo fato da prescrição de medicação
estender-se ao parceiro.
Esses dados evidenciam que a atitude de algumas mulheres frente aos profissionais
de saúde também contribui, de certa forma, para invisibilidade das relações
homoeróticas. Desse modo, a análise das questões referentes à saúde sexual
e reprodutiva deve ir além da compreensão da existência de uma heterossexualidade
compulsória que organiza as relações entre as mulheres e os profissionais
de saúde e se concentrar na percepção de as relações entre mulheres são
cem por cento garantidas.
Você conhece alguma sapata que faça sexo seguro?
Além da inexistência de um risco de gravidez nas relações entre
mulheres, ao descreverem suas relações como cem por cento seguras,
as mulheres se referem também à inexistência da ameaça de contração
do vírus da Aids, nas relações entre mulheres. A despeito da freqüência
aos serviços de saúde, no que concerne à realização de práticas de sexo
seguro, os dados sugerem não apenas uma falta de adesão a quaisquer práticas
preventivas, mas, uma disposição ao não exercício de sexo seguro em virtude
da percepção de inadequação dos métodos existentes às suas práticas sexuais.
Ao perguntar às mulheres se elas procuram fazer sexo seguro com as mulheres
com as quais se relacionam, freqüentemente ouvia como resposta a seguinte
pergunta, Você acredita que exista alguma sapata que faça? Manifestando-se
em geral a favor da utilização de preservativos e referindo o uso destes
nas relações que tiveram com homens, de uma maneira geral, elas afirmavam
que não existem métodos adequados para fazer sexo seguro entre mulheres.
Essa afirmação se refere principalmente às práticas de sexo oral,
aos contatos genitais, às carícias e às práticas penetrativas, nas quais
não são usados acessórios. No que concerne ao uso de acessórios, encontrei
referência adesão ao uso do preservativo masculino nos dildos e
em alguns tipos de vibradores, quando estes são compartilhados, e também
práticas como lavar o objeto antes de passar para a parceira.
É recorrente entre as entrevistadas a recusa à utilização de preservativos
convencionais, de camisinhas de língua e de quaisquer outros materiais,
tais como papel filme e luvas cirúrgicas, cujo uso é aconselhado
por alguns ginecologistas e também por campanhas organizadas por setores
do movimento lésbico[5].
Esses métodos são vistos pelas mulheres como barreiras ao contato,
o qual é considerado indispensável na prática sexual. Embora se declarem
conscientes da possibilidade de transmissão de doenças pela via sexual,
as mulheres dizem que se expõe a elas por considerarem que são de fácil
tratamento. Essa banalização das DSTs faz mais sentido à medida que é
comparada ao impacto da Aids na vida dos indivíduos. Desse modo, a baixa
probabilidade de contágio pelo HIV/Aids (embora seja uma possibilidade
considerada como sempre presente) faz com que as mulheres se percebam
como fora do grupo de risco.
Esses dados ilustram a complexidade da relação entre saúde e sexualidade
no que se refere às práticas sexuais realizadas no contexto da parceria
homoerótica feminina. A adequação de certos materiais, como os descritos
acima, por parte dos profissionais de saúde e da militância organizada,
a fim de promover sexo seguro entre mulheres, é um dado significativo
que corrobora a argumentação de Fachini, no sentido de que a questão da
saúde das mulheres que transam com mulheres se encontra “dentro do armário”
(Fachini, 2004, p.36).
Moralidade como termômetro da prevenção
Os dados informam que a referência à prevenção frente ao risco de DSTs,
embora pouco significativa, é associada às primeiras relações, tendendo
a ser abandonada com o passar do tempo nas situações de conjugalidade
e às relações com parceiras eventuais. Dentre as precauções referidas,
destaco a opção em não realizar certas práticas num primeiro encontro,
tais como o sexo oral e o contato genital, escolha que pode sintetizada
pela expressão sexo de calcinha.
Essa prática pode ser associada a uma percepção recorrente entre o grupo
entrevistado de que a única forma de fazer sexo seguro é conhecer a
pessoa com quem vai pra cama. Essa idéia alude às práticas sexuais
que se desenrolam no contexto conjugal e a uma expectativa de exclusividade
sexual. A fala de Cristine evidencia uma associação entre saúde sexual
e uma expectativa de fidelidade conjugal:
O sexo mais seguro que eu faço é manter sempre a mesma parceira e ela
me manter também. Esse é o nosso sexo seguro. Porque o sexo só não é seguro
quando tu tens muitos parceiros, eu acho que é isso que faz o sexo não
ser seguro, se uma semana tu transa aqui com uma pessoa e na semana seguinte
com outra e depois com outra.
Nesse sentido, os dados são exemplares da forma como o discurso sobre
o sexo seguro é um campo privilegiado para a elaboração de significados
que, em termos da constituição da parceria, hieraquizam relações mais
ou menos valorizadas, bem como parceiras mais ou menos desejáveis. Essa
diferenciação moral, em relação percepção do risco associado ao tipo de
parceira não é peculiar das relações entre mulheres. Ela foi largamente
evidenciada nas pesquisas realizadas, sobre saúde reprodutiva, entre casais
heterossexuais, o que tange a opção por método pré-conceptivo ou de prevenção
de Aids[6].
Nesse sentido, transar com uma mulher bissexual é percebido como mais
perigoso para a transmissão de doenças. A propósito dessa classificação,
Thaís me conta que, embora já tenha ficado com mulheres bissexuais
ela tem receio desse tipo de envolvimento. Segundo ela, por
se relacionarem com homens, as bissexuais estariam mais propensas
a contraírem uma doença venérea. Assim, em relação às mulheres bissexuais
o (des) conhecimento, expresso aqui na idéia de perigo, é percebido
pelas mulheres como muito maior do que nas relações com mulheres
definidas como exclusivamente homossexuais.
Entendo essa percepção de perigo como uma transposição para o
campo da saúde de um julgamento de ordem moral. As mulheres bissexuais
são classificadas como aquelas que topam tudo (podem ter relações
tanto com outros homens como com outras mulheres) e por isso são mais
perturbadoras da estabilidade conjugal.
Dado o exposto acerca da preocupação das mulheres com a saúde sexual e
reprodutiva, a despeito da relativa freqüência ao ginecologista, sugiro
que predomina uma tendência à banalização das doenças sexualmente transmissíveis.
Procurei fundamentar esse argumento no decorrer do artigo pela não vinculação
dos relacionamentos homoeróticos femininos com a transmissão do HIV/AIDS
e pela expectativa de fidelidade conjugal. As estratégias preventivas
das mulheres, como destaquei, estão relacionadas a diferenciações de hierarquias
morais e à preferência pela constituição de uma parceria estável, na qual,
a partir do conhecimento da parceira, a preocupação com a prevenção
torna-se desnecessária ou inconveniente.
Bibliografía:
FACCHINI, Regina. Mulheres, Diversidade Sexual, Saúde e Visibilidade Social.
In RIOS, L. F. Almeida, et al Homossexualidade: Produção
Cultural, Cidadania e Saúde. Rio de Janeiro, ABIA, 2004. pgs. 34-43.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: A vontade de Saber.
Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
GUIMARÃES, C. D. “Mas eu conheço ele!” Um método de prevenção do HIV/
AIDS. In: PARKER, R. & GALVÃO, J. (orgs.) Quebrando o Silêncio:
Mulheres e Aids no Brasil. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1996. p.
169 – 179.
LOYOLA, Maria Andréa de. A Sexualidade como Objeto de Estudo das Ciências
Humanas. In: HEILBORN, Maria Luiza. Sexualidade: O Olhar da Ciências
Sociais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. (pgs. 31-39)
MACHADO, Paula Sandrine. Muitos Pesos e muitas medidas: representações
de masculinidade no âmbito das decisões sexuais e reprodutivas.
Dissertação. (Mestrado em Antropologia Social). Instituto de Filosofia
e Ciências Humanas. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre,
2003.
MOURA, Simone Rolin de. Pensando a Lesbianidade: Formas de Empoderamento
e Visibilidade. Monografia. (Graduação em Ciências Sociais) Instituto
de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Federal do Rio Grande de
Sul, 2005.
RICH, Adrienne. La heterosexualidad obrigatoria y la existência lesbiana.
Navarro, M e Stimposn, C. Sexualidade, gênero y roles sexuales
Buenos Aires: Editora Foundo de Cultura Económica, 1999. pgs. 159 – 211.
Notas:
[1] A dissertação foi elaborada sob a orientação de
Daniela Riva Knauth e apresentada como requisito para a obtenção do título
de mestre junto ao Programa de Pós Graduação em Antropologia Social da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em março de 2005.
[2] Aqui, cabe salientar
outra importante orientação metodológica, relacionada da especificidade
do trabalho de campo na área de sexualidade. Trata-se da necessidade de
administrar a situação de parceria potencial que se coloca nos espaços
de sociabilidade e de busca por parceiras. Ou seja, além de uma pesquisadora
interessada no estudo da homossexualidade feminina, no campo eu era também
uma parceira potencial. Ao invés de pensar nisso como uma dificuldade
eu procurei explorar essa condição para apreender sobre forma como as
parcerias se constituíam. Portanto, foi através da participação nos jogos
de sedução e conquista das mulheres que fizeram parte da experiência etnográfica
que eu pude apreender às práticas e os significados relacionados à constituição
da parceria homoerótica feminina.
[3] Todos os nomes atribuídos
às informantes são fictícios e atendem ao compromisso ético de proteger
a identificação das mulheres que participaram da pesquisa.
[4] A marcação itálica
no decorrer do texto indica que a expressão é êmica, ou seja, a voz que
fala não é minha e sim a das mulheres que participaram da pesquisa.
[5] Essas recomendações por parte o movimento homossexual
são bastante esparsas, de forma que como mostra Rolim de Moura (2005)
a questão da saúde das mulheres identificadas como lésbicas é pouco abordada
também no contexto do movimento social organizado.
[6] Sobre a diferenciação moral por tipo de parceiro
(a) entre casais heterossexuais, ver Guimarães (1996); Machado (2003).
Sobre
la autora
Nádia Elisa Meinerz. Es Mestre em Antropologia Social (UFRGS), bacharel
em Ciências Sociais (UFSM).
e-mail: nadiameinerz@yahoo.com.br.
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La
salud de las lesbianas:
Apuntes desde la experiencia de atención
Por María Elena Galarreta
Presentación
En el siglo XIX, la medicina no solo se encarga del conocimiento de la
enfermedad, sino también de las reglas de definición entre lo normal y
lo patológico; así la homosexualidad y el lesbianismo son clasificados
como estados patológicos.
Intentaré presentar una revisión de la situación
de salud de las lesbianas en el Perú, para lo que haré referencia
a información recogida en mi experiencia personal como obstetriz
en los talleres desarrollados con el Movimiento Homosexual de Lima, desde
hace 6 años aproximadamente, de los cuales surgió la necesidad
de un espacio para atención de problemas de salud en la población
lesbiana, es decir un consultorio al que ellas pudieran acudir asumiendo
su verdadera identidad. También mencionaré algunas experiencias
en la región.
Esta es una oportunidad para plantear además algunas de las demandas
en salud de la población lesbiana, demanda insatisfecha por la
invisibilidad, la automarginación por un lado y por el otro la
indiferencia y falta de reconocimiento a un derecho humano, como veremos
mas adelante.
Problemas de salud de las lesbianas: Entre el silencio, el estigma
y la discriminación
La población de lesbianas en el Perú se estima entre 4% y 5% según la
especialista María Ragúz. De otro lado, Master y Jhonsons, señalan que
la población de lesbianas alcanza el 10% de la población a nivel mundial.
El Informe Kinsey, en un estudio estadístico hecho a 1200 estadounidenses
de ambos sexos y de distintas edades y condición social explica que el
28% de los entrevistados/as admitió haber tenido experiencias lésbicas.
Como sociedad en general nuestras principales carencias están en
salud y educación, se une a esto una situación de extrema
pobreza. Creo que las mujeres se constituyen en el grupo más vulnerable
en relación con estas necesidades.
Las lesbianas desconocen casi totalmente sus derechos sexuales y reproductivos,
tienen mucha necesidad de atención, consejería y tratamiento;
pero, el temor a la discriminación y censura las hace postergar
y hasta acostumbrarse a vivir con sus necesidades de atención en
salud, mayormente ginecológicas (Colectiva Salud de las Mujeres.2000).
De igual manera las lesbianas podrían correr mayor riesgo que las
heterosexuales de desarrollar cáncer de mama debido a que sólo
un 37% de las lesbianas participantes en un estudio en México habían
estado embarazadas en comparación con un 83% de heterosexuales
(durante el embarazo se liberan ciertas hormonas que tendrían un
efecto preventivo con respecto al cáncer). El tener (en promedio)
mayor peso que las heterosexuales y mayor consumo de alcohol y tabaco,
también son citados por profesionales de la medicina como factores
que incrementarían el riesgo de las lesbianas frente al cáncer
de mama. En cuanto al cáncer Cérvico-uterino, un factor
de riesgo es la portación del virus del papiloma humano (HPV),
que puede transmitirse de mujer a mujer en la relación sexual.
La ausencia de exámenes ginecológicos frecuentes impide
la detección temprana. (Zmuda. 2000).
La “opción por permanecer en el closet” conduciría a la automarginación
en la búsqueda de atención preventiva, un retraso de la atención médica,
o a una historia clínica incompleta o inexacta.
Desde los profesionales de salud, existe la tendencia a homogenizar a
la población a partir de un criterio tradicional, hegemónico y homofóbico.
Lo que el Dr. Carlos Cáceres llama la “patologización de la diversidad
de género”, lo cual conduciría a la atención de baja calidad y situaciones
encubiertas de discriminación y estigma.
La condición socio económica puede ayudar a acceder a servicios de salud
privados en los que la tolerancia y calidad de atención sean mejores o
por lo menos les permiten elegir entre varias opciones.
Problemas de salud de la población lesbiana o de mujeres que
tienen sexo con mujeres
Para ampliar la cobertura; señalaré algunos factores descritos como de
riesgo para ésta población específica:
-Las lesbianas consultan menos (que las heterosexuales) debido a que se
sienten incómodas revelando su preferencia sexual-afectiva a las/os profesionales
de salud.
-Se realizan menos exámenes de rutina porque no requieren anticonceptivos
ni atención prenatal con la misma frecuencia que las heterosexuales, lo
que implica menores posibilidades de detección temprana de cualquier patología,
incluido el cáncer.
- La condición de marginalidad y exclusión que muchas de
ellas experimentan desde pequeñas, no permite el acceso a un seguro
social pues su desenvolvimiento laboral no siempre es formal. Los beneficios
de los seguros tampoco son extensibles a las parejas de las mujeres.
-La negación en nuestro sistema al seguro de la pareja lesbiana.
-En las lesbianas se dan altos índices de alcoholismo y tabaquismo
-La cultura lésbica es una cultura de bares, pues constituye su principal
espacio de socialización.
Hallazgos más frecuentes
Las lesbianas se consideran una población de bajo riesgo frente a enfermedades
de transmisión sexual y el VIH, por una desinformación de los profesionales
de salud respecto de la práctica sexual lésbica.
Sin embargo, podemos afirmar que algunas enfermedades detectadas en ellas
son:
· Vaginitis por Cándida.
· Vulvitis
· Herpes genital
· Cáncer de Mama (cuyos factores de riesgo incluyen: obesidad,
el uso de alcohol y la nuliparidad) el cual suele detectarse en estadios
más avanzados debido a la menor frecuencia de exámenes de
mama.
· Cáncer de cuello uterino, que también es detectado en
estadios más avanzados debido a la menor frecuencia de consultas
ginecológicas.
· Problemas psicosociales derivados de la presión social por la
definición de su orientación sexual (v.g. depresión,
ansiedad y suicidio).
· Problemas cardiovasculares (relacionados al consumo de alcohol y tabaco)
·Y en menor frecuencia VIH
Hasta el momento sabemos que el riesgo de transmisión del VIH asociado
con la práctica sexual entre mujeres es bajo y sin definición. El VIH
está presente en el flujo vaginal y en la sangre menstrual, aunque la
cantidad de virus no se ha medido con exactitud.
El sexo de mujer a mujer incluye un sinnúmero de actividades, aunque
se desconoce el nivel de riesgo que encierra cada una de éstas.
Se cree que el sexo oral, por si solo, presenta un riesgo relativamente
bajo, mientras que aquellas actividades que dañan las paredes vaginales
ya sea por compartir juguetes sexuales sin el uso de un condón
o al introducir dedos con heridas o con uñas largas podría
potenciar el riesgo.
Derechos reproductivos
En la mayoría de países del mundo, las lesbianas que quieren ser madres
solo tienen como alternativa la relación sexual con un varón.
En algunos países de la región como Argentina, Brasil, y
México, ellas pueden acceder a tratamientos privados de fertilización
asistida, utilizando donantes anónimos y/o conocidos. Para la mayoría
que no cuenta con recursos económicos, esa posibilidad resulta inaccesible.
Al derivarse casos para fertilización asistida, según recomendación
del profesional especializado, siempre se debe aconsejar discreción
y “prudencia” en las clínicas, pues el personal y las
demás personas que demandan servicios pueden sentirse agredidas.
La salud Mental
Es un asunto que resulta crítico para las lesbianas que requieren acompañamiento
psicológico para superar crisis inicialmente por asumirse como tales por
el temor al rechazo dentro de la familia y la sociedad. En casos más
graves se produce la automedicalización o la internación forzada -sobretodo
de las más jóvenes- para curarlas de su dolencia.
Algunas historias relacionadas a las reacciones de las familias cuando
sospechan de la orientación sexual de uno de sus integrantes son impresionantes,
pues casi siempre están cargadas de intolerancia y desprecio por lo desconocido,
atribuyéndole conductas aberrantes y patológicas.
Algunas estrategias que se vienen desarrollando en la región
Los grupos de lesbianas se ocupan cada vez más del tema de salud, visibilizando
situaciones de discriminación y exclusión.
La preparación de material para difusión masiva para promover el respeto
de los derechos ciudadanos de las lesbianas desde las organizaciones comprometidas
ayudaría sustancialmente a fortalecer la identidad lésbica.
En el Paraguay, México, Argentina, El Salvador y Brasil los grupos
de lesbianas vienen haciendo grandes esfuerzos por desmitificar la imagen
de sus comunidades con estrategias conducentes a un trato equitativo y
de derecho en los espacios públicos, experiencias que debemos tomar
para emprender nuestras propias campañas.
Propuestas y Acciones
El Perú es país firmante en muchos acuerdos y tratados internacionales
comprometiéndose a proveer servicios de salud sin discriminación de ningún
tipo, incluida la orientación sexual. Ante esto podemos demandar que el
Estado asuma su responsabilidad de proveer servicios de salud respetando
las diferencias.
Acciones
1.- Sensibilización al personal de salud en temas como la tolerancia
y el respeto a la diferencia, unido al desarrollo de capacidades técnicas
respecto de las necesidades de atención de salud de las lesbianas.
2.- Promover la modificación del protocolo de entrevista en la
consulta médica, de modo que pregunte explícitamente por
el tipo de práctica sexual.
3.- Promover el reconocimiento de la salud (entendiendo salud en sus términos
más amplios) como un derecho humano, tanto en los proveedores de salud
como en la población lesbiana, generando la demanda; derecho que no puede
ser vulnerado.
4.- Realizar Campañas de sensibilización a través de información en derechos
a la población LGTB y específicamente a lesbianas sobre sus derechos ciudadanos
y el ejercicio de ellos como una herramienta política reivindicativa
de su identidad.
El camino que queda por recorrer es largo y difícil, pero, tenemos que
creer que es posible revertir ésta situación de discriminación encubierta,
por una sociedad donde el respeto a los derechos humanos afirme la libertad
y autonomía de cada una de las mujeres lesbianas en la región.
BIBLIOGRAFIA
- CÁCERES, Carlos, y ROSASCO, Ana María (2000). Secreto
a Voces. Lima, UPCH y Redess Jóvenes.
- CAREAGA P, Gloria. Relaciones entre Mujeres. Ciudadanía
Sexual en América Latina: Abriendo el Debate. Universidad Peruana Cayetano
Heredia, Perú 2004.
- CARMEL, Shalev. 2001. En Derechos Sexuales y Reproductivos.
Aportes y diálogos contemporáneos. CMP Flora Tristán, Perú
- CHÁVEZ, Susana. 2005. Brechas entre los servicios de
salud y necesidades de l@s usuari@s.
- Convención para la Eliminación de toda forma de Discriminación
contra las Mujeres, ONU 1979.
- LAMAS, Marta. 1996. El Género. La Construcción Cultural
de la Diferencia Sexual. México, DF. Porrua -UNAM.
- MOGROVEJO, Norma. Intimidades. 2000. México
- Movimiento Amplio de Mujeres Línea Fundacional. (MAM
Fundacional) Documentos sobre Salud de la Mujer. 1997-2002. Lima.
- Movimiento Amplio de Mujeres- Línea Fundacional. 2002.
Cartilla de Derechos de Usuarias de Servicios de Salud.
- Nuestros Cuerpos, Nuestras Vidas. 2000. La guía
definitiva para salud de la mujer latina. Colectiva del libro de Salud
de las Mujeres de Boston. Estados Unidos.
- Saúde das mulheres: Experiencia e pratica do Coletivo
Feminista Sexualidade e Saúde. Sao Paulo. Coletiva Feminista Sexualidade
e Saude. Brasil. 2000.
- WIERINGA, Saskia E. “She had a disease of not being
at peace; Are health needs of WSW being me?” Versión preliminary. 2005.
Sobre
la autora:
María Elena Galarreta es Licenciada en Obstetricia, con estudios
concluidos de Maestría en Género, Sexualidad y Salud Reproductiva en la
Universidad Peruana Cayetano Heredia. Es activista del MAM Fundacional
y colaboradora del Movimiento Homosexual de Lima-Mujeres.
e-mail: mariagalarreta@hotmail.com

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Entrevistas
La
Experiencia Lésbica, la Sexualidad y la Salud
Gloria Careaga (México) y Mariana Pessah (Argentina)
comparten
visiones y reflexiones sobre estos temas.
Estoy cansada
de la invisibilidad,
y aún así no quiero llamar la atención
ni pasar tan desapercibida
Gabriela de Cicco (Argentina)
Dos activistas feministas lésbicas responden en esta
ocasión a la entrevista que les hiciera Ciudadanía Sexual
recientemente: Gloria Careaga (México) y Mariana Pessah (Argentina/Brasil).
Con ellas abordamos cuestiones relativas a las relaciones eróticas
entre mujeres y en que consiste la expresión de la pasión
entre mujeres y su visibilización. Gloria señala que “el
deseo, la expresión erótica, la pasión entre mujeres
ha tenido distintas expresiones en el ámbito público”.
Mientras Mariana, alude a su reciente quehacer artístico “Malena
y el mar” donde propone “visibilizar y romper muchas estructuras
y creencias del hétero-patriarcado que llevamos dentro” y
en ese mismo afán ubica su exposición fotográfica
en Porto Alegre.
Asimismo comparten sus visiones sobre el deseo y erotismo lésbico
y las relaciones sexuales entre mujeres. Gloria alude la falta de investigación
al respecto, sus dudas sobre las que existen y plantea nuevas preguntas:
¿Qué es lo que erotiza a las mujeres en sus relaciones?
¿Cuáles son sus prácticas? ¿Su concepción
de las relaciones? ¿Qué relaciones?.
Ciudadanía Sexual les consulta sobre la cierta mitificación
de las relaciones sexuales entre mujeres que parecieran “aislarlas”
del riesgo de infecciones de transmisión sexual y otras infecciones.
Frente a lo cual Mariana responde “que el contexto masculinista
y heterocéntrico” afecta sus propios cuidados, ya que por
ejemplo no encuentran preservativos especiales para ellas y la adaptación
de los mismos las coloca en desventaja.
Sobre las alianzas entre lesbianismo y feminismo y las relaciones de poder
entre lesbianas, Gloria explica que el poder ha sido uno de los ejes más
discutidos en la región y afirma sus esperanzas de avance. Señala
además que “es necesario reformular la alianza con las feministas.
Muchas lesbianas activistas nos asumimos feministas, pero el trabajo en
si de los grupos no necesariamente ha caminado por esa vía”
este será tema de discusion del próximo X Encuentro Feminista
que se celebrará en Brasil.
La Experiencia Lésbica, la Sexualidad
y la Salud
Gloria Careaga (México) y Mariana Pessah (Argentina) comparten
visiones y reflexiones sobre estos temas.
Ciudadanía Sexual: Hablemos de las
relaciones eróticas entre mujeres. Como en otros aspectos de la experiencia
lésbica, también ha existido una invisibilización, un relegamiento al
espacio de lo indecible, de lo impensable. Sin embargo, los
tiempos han cambiado. ¿En que consiste la expresión de la pasión
entre mujeres? ¿Cómo se pueden visibilizar?
Gloria
Efectivamente, el deseo, la expresión erótica, la pasión entre mujeres
ha tenido distintas expresiones en el ámbito público. Hasta hace unos
años, la presencia de relaciones de mujeres en las cintas cinematográficas
se reducía a algunas muestras de afecto, al estrechamiento de las manos
o a escenas de mujeres en una tina de baño o en una cama en apariencia
lánguida. Creo que una de las primeras películas que empezaron a mostrar
la pasión fue la película canadiense “Al caer la Noche”, donde había muestras
eróticas y de pasión obvias.
Actualmente, no solo están en el cine, también en la televisión comercial,
con The L World, una tiene escenas importantes de expresión sexual, casi semanalmente.
Aun así, está restringida a la televisión de cable y en general las relaciones
entre mujeres continúan manifestándose como relaciones entre amigas, de
manera muy ambigua.
Desafortunadamente, para la sexualidad, no podemos decir que es una situación
exclusiva de las lesbianas. Si bien se acentúa, me parece que las relaciones
eróticas entre hombres, fuera de las cintas pornográficas, están silenciadas,
ocultas. Incluso entre parejas heterosexuales, aunque en el cine hay mucho
más, en otros espacios es aun limitada su expresividad.
Así pues, el problema esta identificado en la expresión de lo que podríamos
considerar la libertad sexual.
Mariana
Hay diferentes y variadas formas de visibilizar la existencia lesbiana.
Una de ellas que venimos construyendo en Brasil, es el Día Nacional
de la Visibilidad Lésbica. El 29 de agosto en muchas ciudades del país,
se organizan actividades como charlas, cine-debate, marchas callejeras,
etc.
Para mí, la visibilidad lesbiana, es una herramienta de lucha y una de
sus funciones es denunciar la heterosexualidad obligatoria, y la otra,
la dictadura patriarcal que las mujeres padecemos cotidianamente. Si no
fuera así, con el día 28 de Junio nos sentiríamos contempladas y no precisaríamos
crear una nueva fecha. Pero lamentablemente, de aquel lejano Stonewall
a hoy, han pasado muchas cosas. Todo el contenido político, rebelde y
de lucha con el que nació la fecha se ha ido transformando en un carnaval
fuera de época, despolitizado y sin ningún aire transformador.
En un plano personal, y no por eso menos político, como fotógrafa y artista,
trabajo con la imagen de las lesbianas. Nosotras no tenemos referentes
visuales históricos de cómo somos y mucho menos de nuestra erótica. Esa
invisibilidad y falta de registros, contribuye a fortalecer la imagen
de la lesbiana masculina, butch como única posibilidad. Como si
una mujer muy fem, no pudiera también, ser lesbiana.
Acabo de terminar de escribir mi primer libro “Malena y el mar”. Desde
un plano literario, en él, me propongo visibilizar y romper muchas estructuras
y creencias del hétero-patriarcado que llevamos dentro. La construcción
de nuevos referentes se vuelve una lucha constante donde nos vemos reflejadas
quienes no creemos en el cuento del príncipe azul, sino de la princesa.
CS. La escritora lesbiana Valeria Flores invita a "...rastrear
en la historia de silencios las huellas de las relaciones entre mujeres,
de la pasión entre mujeres, las formas en que ha sido designado el
erotismo entre mujeres, en una convocatoria a redescubrir la dimensión
histórica de nuestro deseo, sus luchas por la sobreviviencia y pervivencia".
En este ejercicio, ¿cuáles serían estas dimensiones? ¿Puedes
plantear algunas ideas acerca de tu visión del deseo y erotismo lésbico?
¿De las relaciones sexuales entre mujeres?
Gloria
Definitivamente creo que el erotismo entre mujeres tiene distintas expresiones.
Como otros productos sociales, depende del momento histórico y de la cultura.
Hoy las chicas probablemente tienen ideas distintas de las que tenemos
quienes nos iniciamos hace rato. Desafortunadamente hay poca investigación
al respecto. Y, todavía expresan muchas dudas quienes pretenden incursionar
en este campo.
Efectivamente se hace necesaria una mayor indagación sobre las distintas
expresiones a través de la historia. Creo que entre nosotras se han levantado
buenas ideas sobre aspectos que nos gustaría conocer de las relaciones
entre mujeres en nuestra región, pero hasta ahora nos hemos quedado ahí,
en las ideas. Hace falta más tiempo y recursos para impulsar la investigación
al respecto.
A mi me gustaría saber ¿Qué es lo que erotiza a las mujeres en sus relaciones?
¿Cuáles son sus prácticas? ¿Su concepcion de las relaciones? ¿Qué relaciones?.
Mariana
La imagen de dos mujeres juntas, me causa una de las sensaciones más fuertes
y profundas que he sentido y visto jamás. Duplican la propia sensualidad
de la mujer y revolucionan el mundo. No dejan indiferente a nadie.
En este momento estoy haciendo una exposición de fotos en Porto Alegre,
en un importante Centro Cultural. Dentro de las fotos que seleccioné,
muestro tres fotos que hicieron parte de un proyecto de visibilidad lésbica.
Se nota cómo las personas no tienen el ojo acostumbrado para ver lesbianas
fuera de “época” o “contexto”. Se refieren a ellas como las fotos de
la marcha gay, o de las personas homosexuales y me preguntan
si realmente lo son, cuando nadie pregunta a cerca de la sexualidad de
otros/as personajes que también aparecen reflejados/as en las imágenes.
CS. A partir de la información sobre un menor riesgo de VIH,
se ha dado quizás cierta mitificación de las relaciones sexuales
entre mujeres, llegándose a pensar que éstas casi no comportan el
riesgo de infecciones de transmisión sexual. Pero hay evidencias
de un creciente número de lesbianas con otras infecciones,
y también existe cierto número de éstas viviendo con VIH. ¿Existe
algún nivel de discusión sobre este tema? ¿Se ha implementado alguna
iniciativa en este campo?
Gloria
En la región Latinoamericana y el Caribe, ha habido poco interés en indagar
al respecto. En la década de los noventa se impulsaron algunos talleres
sobre sexo seguro, pero tal vez la poca información que tenemos sobre
la sexualidad lésbica ha impedido continuar. De hecho no tenemos información
sistematizada sobre las vías de contagio.
Ya ves, con el estigma, ni siquiera es fácil detectar la orientación sexual
o las practicas sexuales de las mujeres contagiadas. De nuevo se asume
la heterosexualidad y desde ahi se recolecta la información.
Mariana
Es verdad que al tener conocimiento de que no hay datos científicos comprobados
de que entre mujeres se hayan contagiado el VIH, hace que las lesbianas
den menos importancia al cuidado.
Creo que hay una creencia errónea sobre que el mal primero es el VIH y
no muchas otras enfermedades como la hepatitis C o el HPV que son bastante
serias también.
No podría dejar de mencionar el contexto masculinista y heterocéntrico.
Los preservativos están hechos para hombres o para mujeres heterosexuales.
Una, como lesbiana, se siente un poco humillada al tener que adaptar cuidados
ajenos como cortar un preservativo para tener sexo oral, comprar una barrera
de uso dentario o utilizar guantes de cirujano que quitan sensibilidad.
Es común ver folders impresos con algunas pocas informaciones, generalmente
las mismas, porque mencionar cuidados básicos, da dinero para las ONGs.
Pero, como bien plantea esta pregunta, no resuelve los problemas de salud.
CS. Lesbianismo y feminismo en alianza o síntesis, han intentado
acabar con el silencio que rodea al lesbianismo, en especial a las relaciones
sexuales entre mujeres. Pero, ¿en que otros campos hace falta incursionar
aún? ¿cuáles han sido obviados? Por ejemplo, ¿cuánto se
ha discutido sobre las relaciones de poder entre lesbianas?
Gloria
En cuanto a alianzas, me parece que es necesario reformular la alianza
con las feministas. Muchas lesbianas activistas nos asumimos feministas,
pero el trabajo en si de los grupos no necesariamente ha caminado por
esa via. Hoy las feministas de la región recuperan la discusión y forma
parte de uno de los ejes de discusion del próximo X Encuentro Feminista
que se celebrara en Brasil, veamos que sale de ahi.
En cuanto a las discusiones internas. Creo que el poder ha sido uno de
los ejes mas discutidos en la región. En relación con las feministas y
al interior del movimiento lésbico. Probablemente su abordaje ha sido
uno de los núcleos para el deterioro de las relaciones entre las organizaciones
de la región, así como en el estigma hacia algunas de las líderes.
Hace falta un reconocimiento mutuo y el discutir en serio sobre el proceso
de construcción del movimiento. Se ha planteado también un espacio para
la discusion en el encuentro, confiemos en que seguiremos avanzando.
Mariana
Linda pregunta. Creo que para poder llegar al fondo, o a la raíz de las
relaciones de poder entre lesbianas, tendríamos que volver a Engels y
El origen de la familia, la propiedad privada y el estado. Él relata
claramente cómo la propiedad privada empieza con el patriarcado. A partir
de ahí, vamos a tener 10.000 años de opresión en los cuales vamos a seguir
reproduciendo esos mecanismos. Hombres y mujeres.
Por eso que es tan importante formar, generar, mantener espacios únicamente
de mujeres y otros específicamente de lesbianas. Necesitamos limpiarnos
de tanta misoginia, opresión, humillación, desvalorización, sexismo y
lesbofobia internalizada. Eso se puede hacer únicamente entre mujeres,
es imposible limpiar las miserias al lado del opresor, sea este conciente
o no.
Los hombres en esta sociedad, tienen un estatus tal, que hasta al más
“feminista”, es posible encontrarle su espacio de privilegio que no va
a resignar.
Del mismo modo podríamos ver el mundo lésbico. Las lesbianas somos criadas
como mujeres y sufrimos una doble discriminación social: de género y de
identidad sexual. Si no hemos entendido el mecanismo de poder que hay
en la sociedad, claramente lo trasladaremos a nuestras relaciones. Por
eso, en el artículo “Derribando las paredes del patriarcado” digo lo siguiente:
“Las lesbianas particularmente molestamos al patriarcado porque dejamos
el falo fuera de casa y hacemos el amor por placer y no para reproducir.
Creamos un hábitat en el cual las relaciones no son parte del poder y
dominio de un sexo por sobre el otro. Generamos las condiciones básicas
para crear nuevas lógicas de relaciones“.
Cuando hablo de las lógicas de relaciones, me refiero a inventar
vínculos que no lleven en sí las semilla sexista, misógina y por sobre
todo, la ideología de dominio. Vamos a conseguirlo el día que podamos
subvertir el orden e ideología patriarcal, que lleva en sí la ideología
del dominio. Cuando dejemos de sentirnos excluidas, esa libertad de existir,
de estar, de pertenecer nos permitirá crecer y pensar desde otro lado.
Desde un lado mujeril.
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