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Homossexualidades
e Circuitos do Desejo no Rio de Janeiro.
Por Luís Felipe Rios
Neste artigo, busco refletir sobre alguns aspectos da
organização das vidas eróticas de homens jovens com práticas homossexuais,
reconstituindo e apresentando cenas eróticas próprias ao circuito homoerótico
do Centro do Rio de Janeiro.
Como recurso para a apresentação dos dados, recorro ao que chamo de sujeito
coletivo. Criei um personagem ficcional, que poderia ser qualquer
um dos rapazes com os quais tenho convivido nas minhas pesquisas ou ações
educativas – ainda que nenhum deles, pois Fábio tem uma história que é
só sua. Na sua construção, seguindo o processo de constituição das subjetividades
como acontecem no mundo real, marquei-o por inserções de classe, de gênero,
raciais, etárias, instrucionais, marcadores e padrões de beleza etc. Inserções
que determinam as trajetórias de vida das pessoas e suscetibilidades a
diferentes agravos sociais, como apontei em outro trabalho (Rios, 2002
b).
De certa forma, Fábio, em diversos dos eventos que passarei a narrar,
estará como que “incorporado” por algum dos homens com quem interagi no
decurso da pesquisa – ou sendo “dirigido” por mim por meio de scripts
(Simon e Gagnon, 1999) que apreendi dos fatos que me foram narrados e
das interações que observei. O leitor pode reencontrar essas múltiplas
“entidades” com as quais Fábio estará “atuado” em alguns dos textos produzidos
anteriormente, como Rios (1997 e 2002 b) e Almeida, Rios e Parker (2002),
ou em interações e sujeitos descritos por outros autores, como Parker
(1991 e 2002) e Terto Jr. (1989).
Assim, se a minha experiência etnográfica foi suficiente para que eu chegasse
às estruturas que orientam os eventos (Sahlins, 1990), quero crer que
mesmo os fatos ficcionais são passíveis de serem reais – ou ainda, do
mesmo modo como sugere Fry (1982) em relação à criação dos personagens
Amaro e Aleixo por Adolfo Caminha no romance Bom-crioulo, as situações
que Fábio representa, se não são verdadeiras, são verossímeis.
Fábio, desde 14 ou 15 anos, iniciou-se no circuito por que transitaremos
descobrindo os diferentes lugares onde a sexualidade que “não ousa se
dizer” encontra espaços para a sua realização. Hoje, aos 19 anos, ele
é perito nas artes da “pegação” (paquera) e conhece todos os “buracos”
e “inferninhos” do Centro e arredores.
Do ponto de vista de identidade sexual, só na época em que descobriu o
circuito referido é que veio a se reconhecer como homossexual. Hoje, com
19 anos, Fábio não é alto nem baixo, nem é gordo nem é magro, também não
é fisiculturista. Tem cabelos e olhos escuros, mas de pele clara. Ainda
que não possua os exaltados atrativos contemporâneos de beleza, faz o
tipo mediano, que “agrada a maioria”: não é negro, não tem o cabelo pixaim,
não é gordo, não é peludo. Também não é “afeminado” (utilização de marcadores
do feminino hegemônico para compor performances de gênero). Assim,
além de ter sua homossexualidade invisibilizada aos olhos do machismo
e heterossexismo dominante, também transita muito bem no meio gay.
Circuito do desejo
O Centro da cidade do Rio de Janeiro. Ficarei circunscrito a um circuito
muito conhecido pelos homens com práticas homossexuais – Campo de Santana
e Central do Brasil, Via Ápia e Aterro do Flamengo, Cinelândia, Lapa,
avenida Mem de Sá e rua Gomes Freire etc. Conforme Parker (2002), por
seu grande movimento e sua relativa mistura de classes sociais, o Centro
é um dos principais locais da vida gay no Rio de Janeiro.
Sexta-feira, primeira parada, Lapa, por volta das 23 horas. Para começar
a noite, nada melhor do que uma cerveja em uma das barraquinhas que se
amontoam na calçada que divide as duas vias de trânsito. Dali, Fábio pode
observar o movimento, as pessoas chegando, passando. Os sentidos já estão
alerta, pode calhar de cruzar o olhar, se não for com o “príncipe encantado”
– que “todo” homem sonha em um dia encontrar – pelo menos com um rapaz
“gostoso” e “bom de cama” que “lhe dê muito prazer naquela noite”.
De preferência, que tenha o dinheiro para pagar as cervejas, o “churrasquinho
de gato” e, sobretudo, o motel, caso a interação resulte em sexo. Vale
lembrar que Fábio apenas estuda, iniciou um curso universitário, que os
pais se esforçam em pagar na esperança de que o filho tenha um futuro
melhor. Mas a noite está só começando, e encontrar o tal príncipe logo
de cara nem sempre é fácil – ainda que seja um daqueles que “se transforma
em sapo” aos primeiros raios da manhã ou após o orgasmo.
O seu point predileto é o Congado (nome fictício), que só abre
às sextas; uma mistura de bar e dancing. Não é um lugar explicitamente
“gay”, mas a freqüência, pode-se dizer, é majoritariamente de homens.
Também é possível afirmar que o homoerotismo “transpira junto com o suor”.
Fábio curte o local pelo que chama de “ecletismo”. Quando toca funk,
não há como negar, é tanta gente a se espremer ali que ou se “sarra”
ou se é “sarrado”, “não tem machão certo!”. Os “heterossexuais convictos”
que se retirem, caso se sintam incomodados.
A “sarração” é caracterizada como o ato de esfregar-se, de “roçar” as
partes erógenas em busca da excitação sexual; é entendida como um ato
relacional, em que duas ou mais pessoas podem estar envolvidas.
No Congado, as cadeiras balançam, e as mãos correm. Para quem gosta de
ser “sarrado” nas nádegas, é só ir se chegando para trás; quem tem outra
preferência erótica, vai se chegando para frente e pode usar da genitália
(escondida dentro da calça – ainda que já “agitada” pelo clima de sensualidade
e erotização das músicas e dos corpos em movimentação) ou das mãos para
“roçar” quem está na frente. Isso tudo acontece, com muito tato, ou seja,
checando por uma série de códigos as preferências eróticas do outro (se
este responde positivamente, com olhares de aquiescência, aproximação,
sorriso etc., ou negativamente, com cara feia, afastamento, pedido de
licença – assim, a pessoa se desculpa e culpa a multidão). Mas, volto
a lembrar, é necessário que seja tudo na discrição. Sem chamar muita atenção
para o que está se passando dos dorsos para baixo!
No Congado, contribuem para a excitação de Fábio o jogo entre implícito
e explicito e a suposta e discreta quebra dos tabus sexuais em um espaço
supostamente heterossexual. Além disso, a excitação coletiva, quase orgiástica,
mas sem a nudez dos genitais (e das nádegas).
Fábio, por não encontrar alguém interessante naquele espaço e como estava
muito a fim de uma interação sexual “mais quente”, foi, como de costume,
até o Aterro – dez minutos de caminhada. O melhor horário para se chegar
àquele local, um parque público, é entre 3 e 4 horas. Nesse horário, os
guardas estão menos vigilantes, e isso permite que se fique mais relaxado.
As pessoas estão saindo dos bares, boates e festas e vão chegando. Há
também os que madrugam em busca de prazer sexual, e aquele é o lugar mais
certo e mais barato para encontrá-lo.
As pessoas procuram os lugares mais ensombrados para parar e mostrar o
pênis (os que têm preferências por interações sexuais em que sejam os
penetradores, na boca ou no ânus). Há os que preferem se destacar; assim,
ao arrumar alguém, não precisam dar espaço para uma interação grupal.
Alguns preferem não ficar muito distantes dos outros, até porque não dispensam
a potencialidade da excitação de observar as interações sexuais alheias.
Podem até, quando determinados sinais são acionados, se aproximar, e o
sexo grupal pode se formar. Há, ainda, os que ficam passeando de uma árvore
a outra, sempre seguindo o caminho das sombras, para não chamar atenção
dos policiais.
Fábio parou sob a sombra de uma grande árvore e começou a se masturbar.
Alguns passos adiante, outros rapazes, homens de meia idade e idosos também
se masturbavam ou observavam os outros se masturbando. Às vezes, até que
a masturbação individual dê passagem à coletiva, demora um pouco. A masturbação
mútua pode resultar também em sexo oral (dual ou coletivo). No Aterro,
como nas interações no Congado, a discursividade oral é mínima; são gestos,
toques e olhares que sinalizam os sentidos, as vontades, os desejos e
as práticas.
É comum, enquanto as pessoas se abraçam, enquanto os mamilos são sugados,
as mãos trabalharem e os dedos verificarem se o parceiro gosta de ser
penetrado. Um mesmo homem pode ser penetrada por vários, um após outro.
Nesse tipo de interação erótica, é bastante comum o compartilhamento de
“camisinhas”: sem trocar o preservativo, um mesmo sujeito penetrar vários
homens. Em geral, uso do preservativo se restringe ao sexo anal, raramente
é usado no sexo oral. Ainda no sexo anal, há sempre alguém transando sem
ele.
Na verdade, não terei condições de descrever todos os tipos de interações
que se formam em locais como o Aterro. Uma composição das que descrevi
acima, porém, será recorrente. Quero assinalar, entretanto, que prevalece
o clima de consentimento e respeito pelas disponibilidades alheias para
as práticas. Se alguém não está gostando de um tipo de prática ou da tentativa
de envolvimento de alguém que não se deseja, isso é sinalizado. Se o(s)
parceiro(s) insiste(m), quem se sente incomodado procura outro lugar e/ou
outra(s) pessoa(s).
Fábio está exausto da noite, dos “flertes”, “sarros” e “transas”. Segue,
então, para casa, onde encontrará o “sono dos justos” e sonhará com o
seu programa para o sábado: talvez uma visita ao clube Estrela da Noite
(nome fictício), ainda nas imediações da Lapa.
Mudando a cena, os roteiros interpessoais que orientam as interações (Simon
e Gagnon, 1999) também mudam. No Estrela da Noite, o foco, bem mais que
no Congado e, sobretudo, que no Aterro, é o da busca pelo contato verbal,
ainda que também culmine no intercurso sexual.
Quando Fábio está à procura de “relacionamento”, evita flertar com rapazes
mais jovens. Em geral seus olhares se dirigem para homens mais velhos
(em trono de dez anos). O Estrela da Noite é um dos lugares onde está
buscando o seu “príncipe”, que, entre outros requisitos, deve poder “bancá-lo”
(assumir os custos do parceiro). Assim, um homem com dez anos a mais deve
estar no lugar onde o próprio Fábio quer estar daqui a dez anos: estabilizado
financeiramente.
Isso não quer dizer que, se algum rapaz mais jovem “lhe der mole”, ele
não permita a aproximação e não passe para os “sarros” ou para a “transa”.
De fato, isso ocorre muitas vezes, mas o que seus olhos buscam, sobretudo
em espaços como esse, não é apenas alguém para “ficar” por uma noite –
pelo menos até saturar o seu limite de cerveja.
Em suas escolhas, Fábio rapidamente analisa o vestuário e tipo físico,
tentando encontrar indicativos de classe – não basta ser mais velho, tem
de ser estabelecido. E, de tanto procurar, ele viu um rapaz interessante:
camiseta básica, sapato de uma marca acessível às classes médias, calça
jeans, em torno de 30 anos: o seu tipo ideal.
No Estrela da Noite, o contato nunca deve começar por toques, como no
Congado, e o grau de exigência para permitir que um flerte ou “cantada”
se transforme em interação corporal é bem maior. A discursividade oral
é bem mais valorizada e nem sempre uma aproximação, ainda que desejada,
culmina em sexo.
Após um ritual de aproximação – que envolve o entrecruzamento dos olhares
e a aproximação verbal –, segue uma conversa “em pé de orelha”. Carlos
é o nome do novo personagem. Entabulada a aproximação, ainda sem contatos
corporais, eles buscam um local mais apropriado para conversar, o que
leva à “sarração”.
As mãos trabalham, Fábio e Carlos se exploram mutuamente. Além do prazer
imediato proporcionado pelos toques, é sempre bom saber a preferência
erótica do provável parceiro “na cama” para que não haja mal-entendidos,
pelo menos uma idéia quanto à preferência sexual – se o outro é “ativo/penetrativo”
ou “passivo/receptivo”, ou se isso não interessa a ele. Quando as
posições são iguais e consideradas de modo fixo, fica difícil levar o
relacionamento adiante, ainda que seja um relacionamento de uma única
noite.
Fábio arrisca e passa a mão nas nádegas de Carlos que não se incomoda.
Ao contrário, gosta – um aceno de que a passividade, se não é a preferência
de Carlos, pelo menos não lhe é um “problema”. Fábio reforça as carícias
e, já bastante excitado, enfia a mão por dentro das calças e da cueca
do parceiro, descendo nádegas abaixo. Carlos “explode” de prazer. Ele
propõe ao ouvido de Fábio que vão para outro lugar e sugere um motel perto
dali. Fábio explica que o seu dinheiro acabou, só está com o da passagem.
Carlos diz que não há problema, não tem muito dinheiro, mas dá para pagar
o quarto.
Sobre o que aconteceu entre “as quatro paredes”, deixo para as imaginações
dos leitores. Pode auxiliar toda a gama de práticas que elenquei acima
e as dicas que dei sobre os dois personagens. Só assegurarei que eles
usaram preservativo nesse primeiro encontro. Talvez, se a relação se tornar
duradoura, entre o terceiro e o sexto mês, eles abandonarão os preservativos,
como prova de amor e de crença na fidelidade do outro.
Roteiros da eroticidade
No circuito gay descrito, o erótico, ainda que se articule com
as normas de sexualidade (Rubin, 1998; Parker, 1991; Rios, 2002 a) e negocie
com as hierarquias de passividade/atividade do gênero (Parker, 1991; Rios,
2002 a), orienta de forma preponderante a vida sexual dos homens que fazem
sexo com homens (HSH). No sistema erótico, como descreve Parker (1991),
a “norma” é a busca pelos prazeres que os corpos podem oferecer, ainda
que, e sobretudo, às custas das quebras das regras dos outros dois sistemas
– sistema de gênero e sistema de sexualidade.
No âmbito do sistema erótico, e a partir de minhas observações, identifiquei
quatro ordens que se entrecruzam na organização das práticas. Essas ordens,
ainda que muitas vezes constituam no espaço social coletivo lugares específicos
para as suas realizações, em verdade devem ser pensadas mais como operadores
que orientam as práticas, tanto “ali”, naqueles supracitados locais, como
alhures. São elas a “azaração”, a “sarração”, o “baco” e o “relacionamento”
(os termos para nomeá-las foram tomadas do próprio discurso nativo).
A “azaração” atravessa todos aqueles espaços, ainda que, no espaço comum
das ruas, apareça de forma quase autônoma. Nessa ordem, o sentido corporal
mais utilizado é a visão. As sutis trocas de olhares podem sinalizar os
desejos e caracterizam os atos da “pegação”. Uma discursividade gestual
que pode dar passagem a “sarrações”, “bacos” ou “relacionamentos”.
As “sarrações”, por sua vez, não se restringem a espaços como o do Congado.
Elas ocorrerão onde multidões de aglomeram e podem ser caracterizadas
pelas transgressões das regras hegemônicas de proxemia (Alferes, 1987),
como uma espécie de invasão dos limites de contato corporais, comuns nas
relações cotidianas não-sexuais – sobretudo na percepção que os outros
(os que não estão envolvidos na “sarração”) têm das interações que estão
observando. Assim, também estarão presentes nos ônibus e em trens superlotados,
nos bailes de carnaval, nos namoros de “pé de muro” dos casais etc.
A busca e o encontro de “relacionamentos” não se restringem aos lugares
normalmente concebidos como “de família”, próprios para os encontros e
enlaces que tendem a se tornar duradouros, lugares que prezam pelas regras
hegemônicas do decoro, onde se alinham os terreiros de candomblé, as festas
em casas de amigos, os grupos gays, bares e boates etc. Não obstante,
onde o relacionamento opere, é a possibilidade da palavra que faz com
que outras interações sexuais (“azaração”, “sarros” e “bacos”) caminhem
para o namoro ou amizade, cingindo compromissos que atravessam aquele
momento. Palavra que também pode surgir em espaços “orgiásticos” como
um “banheirão da central”, um clube de sexo etc.
O “baco”, uma forma condensada de bacanal, se refere ao que em geral se
concebe como práticas sexuais (felação, sexo anal etc.), em que duas ou
mais pessoas estão envolvidas. Vale salientar que, no sistema erótico,
há a primazia de práticas marginalizadas pelos discursos normativos da
sexualidade (religiosos, médico etc.). Além de estar presente, entre outros
lugares, nos “quartos escuros” das boates ou nos “swings” do funk
(local nos bailes, em geral um aposento mais escuro, onde há brincadeira
de troca de casais e interações eróticas que vão da “sarração” e ao “baco”),
essa ordem invade a santidade dos lares, “as quatro paredes” que consagram
as interações sexuais. Também nesse âmbito as interações duais, preconizadas
pelos outros sistemas de entendimento da vida sexual, são subvertidas
com a entrada (real, virtual ou imaginária) de terceiros, o que, muitas
vezes, ajuda a manter (ou incrementar) a excitação sexual dos casais.
Isso pode se dar na privacidade, na rememoração de outras interações com
outras pessoas ou na imaginação de possibilidades, mas também pode invadir
o casal, quando ambos incrementam suas excitações, ao observar outros
casais em “sarros” ou “transas” – também no real ou no virtual,
quando vêem sites eróticos na Internet, assistem a filmes pornôs
etc.
Volto a enfatizar que, na verdade, as práticas sexuais estarão, em maior
ou menor grau, atravessadas pelas quatro ordens, ainda que, em determinados
locais, nas suas próprias constituições sociossexuais, uma ou outra prevaleça.
É importante que eu deixe claro, até para evitar um certo obscurantismo
heterossexista e moralizante, que as quatro ordens também orientarão –
ainda que com matizes diferentes e marcadas por um certo reprodutivismo
– a organização da heterossexualidade. Elas precisam ser encarados nas
pesquisas e ações não como supostos desvios das normas, mas como possibilidades
utilizadas e consentidas pelos envolvidos, para a obtenção do prazer.
Vale destacar, que o sexual, enquanto construção social, é muito mais
que a satisfação de necessidades básicas ou a ferramenta para a reprodução
de espécimes e manutenção do exército de mão-de-obra; ele está sobretudo
relacionado, como a busca pela socialidade e pela diversão. Contudo, não
estou querendo dizer que encontrei a sexualidade liberta das regras e
acordos, em seu estado in natura. Pelo contrário, como bem mostrou
Parker (1991), não devemos pensar o erótico como o “a essência do sexual”,
livre da cultura: gostos e prazeres, práticas e representações eróticas
são, também, construções culturais e variam de uma sociedade para outra.
Acredito que para termos mais sucesso em nossas abordagens de educação
em saúde e de advocacy por uma sociedade mais justa e eqüitativa,
precisamos conceitualizar – nas ações e nas pesquisas – os desejos, os
prazeres e vivências (homo)eróticas, tanto como construções sócio-culturais,
quanto como bens afirmativos: o direito universal de usufruir plenamente
do próprio corpo e dos prazeres que este pode oferecer (cf. Petchesky,
1999).
Agradecimentos: Quero registrar o meu especial agradecimento
aos jovens que compartilharam comigo suas experiências sexuais. Também
sou grato ao VI Programa de Metodologia em Gênero, Sexualidade e Saúde
Reprodutiva (NEPO-UNICAMP/FORD) pelos recursos para a realização da pesquisa;
a Richard Parker pela orientação da pesquisa da qual este artigo é apenas
um fragmento da etnografia que comporá minha Tese de Doutorado; a Lady
Selma Albernaz que me instigou a escrever este artigo; a Vagner de Almeida,
com quem colaboro na condução do projeto Juventude e Diversidade Sexual
(ABIA/CN-DST/AIDS); a Ivia Maksud e a Magaly Pazello, pelas leituras e
sugestões que ajudaram a enriquecer e tornar mais claro este artigo; e
a Leandro Bastos, co-etnógrafo em muitas das passagens deste trabalho,
além de companheiro de todas as horas.
Referências
ALFERES, V., 1987. O corpo: regularidades discursivas, representações
e patologias. Revista Crítica de Ciências Sociais, 23: 211-219. 4 abril
2003
http://www.fpce.uc.pt/nucleos/niips/i_pub/val_pub/corpo.htm
ALMEIDA, V.; RIOS, L. F. e PARKER, R., 2002. Ritos e Ditos de Jovens
Gays. Rio de Janeiro: ABIA.
FRY, P., 1982. Léonie, Pombinha, Amaro e Aleixo: prostituição, homossexualidade
e raça em dois romances naturalistas. In: Caminhos Cruzados (C.
Vogt, org.), pp: 33-52, São Paulo: Brasiliense.
PARKER, R., 1991. Corpos, prazeres e paixões: a cultura sexual no Brasil
contemporâneo. São Paulo: Best Seller.
PARKER, R., 2002. Abaixo do Equador. Rio de Janeiro: Record.
PETCHESKY, R., 1999. Direitos Sexuais: Um novo conceito na prática política
internacional. In: Sexualidades pelo Avesso: direitos, identidades
e poder (M. R.. Barbosa e R. Parker, orgs.), pp. 15-38 , São Paulo:
Editora 34
RIOS, L., 1997. Loce loce, metá rê-lê! Homossexualidade e transe(tividade)
de gênero no candomblé de nação. Dissertação de Mestrado em Antropologia.
Recife: Departamento de Ciências Sociais, Universidade Federal de Pernambuco.
RIOS, L., 2002a. Quando o assunto é cultura sexual: um “olhar sobre a
mídia”. Olhar sobre a Mídia (CCR, org.), pp. 169-146, Belo
Horizonte: Mazza.
RIOS, L., 2002b. Comportamento Sexual e Saúde: reflexões sobre
a prevenção do HIV/AIDS entre jovens HSH no Brasil. In: Conferencia
regional: Varones adolescentes: construcción de identidades em América
latina. Subjetividades, prácticas, derechos y contextos socioculturales.
Mimeo, Santiago (Chile): FLACSO .
RUBIN, G. 1998. Thinking sex: notes for a radical theory of the politics
of sexuality. In: Social perspectives in lesbian and gay studies:
a reader (P. Nardir & B. Schneider, eds.), pp . 100-133,
London: Routledge
SAHLINS, M. 1990. Ilhas de História. Rio de Janeiro: Zahar.
SIMON, W. and GAGNON, J., 1999. Sexual Scripts. In: Culture, society
and sexuality: a reader (R. Parker and P. Aggleton, ed.), pp. 29-38,
London: UCL.
TERTO JR. V., 1989. No escurinho do cinema...: socialidade orgiástica
nas tardes cariocas. Dissertação de Mestrado em Psicologia. Rio de
Janeiro: Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro.
Sobre
el autor:
Luís Felipe Rios, Doutorando em Saúde Coletiva no Instituto
de Medicina Social (IMS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Assessor de Projetos da Associação Brasileira Interdisciplinar
de AIDS (ABIA)
E-mail: fipo@bol.com.br
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Todo
Me hace el amor.
Por Mary Konna
“Las verdaderas fiestas tienen lugar
en el cuerpo y en los sueños”.
Alejandra Pizarnik,
“Extracción de la Piedra de la Locura”.
Llamamiento.
- Me han pedido, Oh! Pizarnik, que hable del placer y me he negado. Me
he negado, te lo juro, y aun así han insistido. Que tal empresa no es
la mía, que yo no, que no puedo, que mis capacidades son otras… y aun
así han insistido.... A mi que la música solo la llevo por dentro, a mi
que soy como un ave sin alas intentando nadar entre cenizas, a mi que
el arte me recorre los huesos mortificándome los días, a mi adicta descontrolada
a la pasión y al desborde, a mi caballo de fuego desbocado. Les he dicho:
¿cómo se puede hablar del placer sin apelar a la poesía? Y aun así me
siguen tentando, te juro: “habla desde lo que puedes, desde donde puedes”.
Pero, dime, Pizarnik, diosa de la intensidad, ¿cómo se puede hablar del
placer sin apelar a la música? ¿Cómo racionalizar el sentir para decir
lo indecible, lo que por tanto se nos escapa?. Oh! Pizarnik, dime, si
es que puedes, al hablar del placer ¿Cómo se evita hablar desde el lugar
prohibido, desde el aleteo, desde el recorrido y la resonancia?
- Desde el fondo de esta irreverencia, te ruego, acompáñame y se tu mi
guía…que yo misma no lo soy.
Esbozos.
- Hay, por así decirlo, una pasión que me desborda por el vivir. Un gusto
que me excede del tocar y del mirar que tiene la facultad de elevarme.
Hay cosas que solo en la poesía se encuentran.... – “y mi cabeza, de
súbito, parece querer salirse ahora por mi útero como sí los cuerpos poéticos
forcejearan por irrumpir en la realidad, nacer a ella, y hay alguien en
mi garganta, alguien que se estuvo gestando en soledad, y yo, no acabada,
ardiente por nacer, me abro, se me abre, va a venir, voy a venir”....-
Sensaciones intensas que no pueden ser traducidas por una palabra fuera
sino por imágenes que me recorren, cientos de palabras agolpándose todas
por salir... - “Todo cerrado y el viento adentro” … - Un sentir
de la lengua moviéndose, un dedo que se acaricia allí donde un suspiro
me arranca, allí donde el cuerpo baila bailándose a sí mismo, sin que
control alguno pueda yo sostener sin fracasar… - “Ojalá pudiera vivir
solamente en éxtasis, haciendo el cuerpo del poema con mi cuerpo, rescatando
cada frase con mis días y con mis semanas, infundiéndole al poema mi soplo
a medida que cada letra de cada palabra haya sido sacrificada en las ceremonias
del vivir” …- Un fracaso, un fracaso por demás deseado, un placer,
un placer ancho de no poder dominarse allí a una misma. De que algo se
libere sin nuestro antojo, la carne encendida dominándonos… - “El cuerpo
se acuerda de un amor como encender la lámpara”.
Legados.
- Hay recuerdos…- “La hermosura de la infancia sombría, la tristeza
imperdonable entre muñecas, estatuas, cosas mudas, favorables al doble
monólogo entre yo y mi antro lujurioso, el tesoro de los piratas enterrado
en mi primera persona del singular” …- recuerdos de niña mi perra
lamiéndome las orejas. Entre las piernas un fuego, un timbre vibrando
y yo arrastrándome como una perra! Hay un beso, un beso que imagine posibilidad
que no fue… - “hablo de lo que no es/ hablo de lo que conozco”
…- Esa amiga que amaba y el chico que besé con ella, junto a ella, en
complicidad…- “sólo tu haces de mi memoria/ una viajera fascinada,/
un fuego incesante” …- El juego a la pelota, las risas bajo sábanas
de niñas expectantes y niños fantasmagóricos despertando a la sexualidad
dulcemente y sin saberlo. – “Para que las palabras no basten es preciso
alguna muerte en el corazón”.
- El mayor recuerdo de todos esa libertad de andar en bicicleta ese recorrer
por el mundo que cercaba la casa. Sola o en pandilla, un descubrimiento
de la vida que se me ofrecía por doquier. Esa sensación de expectación
ante lo nuevo… - “como si te hubieses preparado desde la infancia,
acércate a la ventana”...- Esa mirada de extranjera que observa todo
por primera vez despojada de certezas, maravillada en lo inaudito. Esas
casas llenas de pasto y pájaros y flores y colores, rostros desconocidos
grandes tesoros escondidos… - “cultivo el jardín del furor/ mi roja
sed humeante señala el día” …- Andar sin ruta, nada predefinido, un
breve y amplio espacio de tiempo infinito en el que perderse y admirarse.
Una sensación de recién llegada, exploradora, viajera… - “Vivir libre”
… - Un regodeo de estar entre tiempos, una complacencia en el caminar.
Y ese viento en la cara y esa sonrisa de niña sorprendida ante el mundo…
- “eso tan terrible./ Lleno de hermosura”
- Después ella y el baile, sus brazos delgados y admirados sosteniendo
un cuerpo aprendiz. Mi cuerpo tenso aprendiendo de a poquito a beber la
música como elixir. El conjunto musical preferido: la invocación. La experiencia
compartida… - “la divina quietud del sexo” … - Una necesidad de
ese cuerpo, esa presencia, ese calor nunca nombrado, desconocido, inexistente…
- “en el pequeño frenesí de toda bujía/ anclada en tus ojos/ que el
viento que el mar que la noche” … - Así, los chicos sus miradas atentas,
necesarias en ese entonces deseadas, aprendidas e instaladas sobre nuestros
cuerpos como cinceles agujereadores… - “oh los ojos tuyos/ fulgurantes
ojos” .
Deseos.
- “En extrañas cosas moro” …- Desear lo que más se desconoce lo
tan ajeno o tan afin. Lo que se quisiera ser y no se es. Paradoja de temblar
ante un cuerpo, cuerpo que no conozco y por eso tiemblo. Dejarte vivir
en mí sin que lo sepas y tan calladamente. Hacerte protagonista de un
placer que estalla entre esas manos de seda del agua acariciante… - “...soy
una pajera como no existe otra” … - La otra noche… - “En un lugar
de temblores/ manos oscilan enamoradas/ en la dulzura de mi rostro/ sobre
tu oscuridad ardiente” …- que proeza! Saltarte y devorarte como guerrera
ver tu cuerpo y atravesarlo. Sentir esa agua que corre por mis piernas…y
ese deseo avasallante…- “muero en la música de los sexos” … - y
ese palpitar de cimientes y sangre… - “coger y morir no tienen adjetivos”
… - ¿Quién eres?… - “¿quién es yo?” … -Mi mujer hombre, mi ni mujer,
ni hombre. Una descodificación andante, una aparición inaprensible. Todo
el erotismo en ti que nadie sabe… - “¿y quién no tiene un amor?/ ¿y
quién no goza entre amapolas?/ ¿Y quién no posee un fuego, una muerte,/
un miedo, algo horrible,/ aunque fuere con plumas/ aunque fuere con sonrisas?”
… - Todo el deseo de la humanidad en ti que yo intuyo y me trastoca.
Toda la rebelión en un cuerpo que se resiste y enamora… - “siniestro
delirio amar a una sombra” … - Todo tu cuerpo, tode tu, una caricia,
conglomerado de huesos, carne y piel deseada, husmeada, imaginada. Tode
tu, sin el nombre que te das y que te aprisiona, sin el nombre que te
dan que no te nombra y del que rabiosamente te escurres, … “y mi amor/
sólo abraza a lo que fluye/ como lava del infierno:/ una logia callada,/
fantasmas en dulce erección…”
Pasión.
- Puede ser que venga o no venga igual ardo por dentro. La pasión por
el vivir es mi sino. No hay mal que por bien no venga. Un gusto por el
ardor del desatino. Hoguera en llamas fluyendo como río soy. Soy y me
vengo, soy viniéndome y cenizas. El goce de la desaparición en el encuentro,
en la transmutación esperada, deseada, suplicada. Que no quiero ser más
nada que ese goce de sentidos. ¿vivir? ¿qué más sino eso?… - “hay que
llorar hasta romperse/ para crear o decir una pequeña canción,/ gritar
tanto para cubrir los agujeros de la ausencia...” – Coger, coger,
coger, desesperadamente y con ansias. Beberse una piel a lengüetazo absorbiendo
fluidos y esencias… - “todo es concha, yo he lamido conchas en varios
países y sólo sentí orgullo por mi virtuosismo –la mahtma gandhi del lengüeteo,
la Einstein de la mineta, la Reich del lengüetazo, la Reik del abrirse
camino entre pelos como rabinos deseados -¡oh el goce de la roña!”
… - y después el suspiro, satisfecho suspiro del fin como vivir una vida
y cerrarla ya satisfecha. Por eso ¿hay principio sin fin? ¿adiós sin bienvenida?
¿desafuero sin calma? ¿vida sin muerte? ¿fuego sin agua?… - “Oh
el color infernal de mis pasiones./ Sin embargo, quedé cautiva de la antigua
ternura” … - He amado tanto, tanto me han amado, qué puedo decir.
Todo dice ardor en mi vida nada se complace en lo fácil o en lo tibio…
- “y el jardín de las delicias sólo existe fuera de los jardines Y
la soledad es no poder decirla Y el muelle gris y las casas rojas”
… - Si he dicho rabia, guerra ha sido, si he dicho llanto, desesperación
de aguacero, tener un goce, haber vivido ya lo suficiente, poder morir
en ese instante mismo para que se eternice. Y así, con todo, todo ha sido
todo, placer continuo de la existencia… - “El sexo a flor de corazón,
la vía del éxtasis entre las piernas. Mi violencia de vientos rojos y
de vientos negros” … - Del verdor de la selva ante mis ojos, de los
cuerpos desnudos que amo y espero… - “Todos los gestos de mi cuerpo
y de mi voz para hacer de mí la ofrenda, el ramo que abandona el viento
en el umbral” …- He amado, amé, me han amado y he llorado y ese llanto
de herida abierta mi fuerza y mi replicar han sido. Cuántas veces he dicho
querer y no quería, cuántas veces hablé en mi silencio, cuántas veces
queriendo me he quedado inmóvil…como ahora… – “Buscar/ no es un verbo
sino un vértigo. No indica acción. No quiere decir “ir al encuentro de
alguien” sino “yacer porque alguien no viene” … -
- Estoy sola, soy sola… - “A solas danza la misteriosa autónoma”
… - Y aun sin nadie y sin quererlo, aun contenta en mi y de mi es esta
pasión, este fuego avivado y eterno… - “solo la sed/ el silencio/
ningún encuentro” … - Me muerdo los labios para no besar, para placer
tengo estas ganas, una cocina y este invierno de cielo abierto. De todas
formas a veces extraño… - “no/ las palabras/ no hacen el amor/ hacen
la ausencia/ si digo agua ¿beberé?/ si digo pan ¿comeré?” … - Me he
preguntado ¿qué hace una tortillera sin manos? Y entonces se muestra la
lengua. Y me he vuelto a preguntar ¿qué hace sino tiene lengua? Y recuerdo
el mentón, el pelo, las orejas, el codo, las rodillas, los senos, los
pies, y aún sin ellos, me digo, a una pájara la hacen su obstinación y
desafuero, una maricona es su grito y su propio goce… - “Dentro de
ella todo hace el amor” …
Septiembre, 2003. Buenos Aires.
Bibliografía:
Todas las citas (en cursiva) han sido tomadas de Pizarnik, Alejandra (2000).
Poesía Completa. Lumen, Argentina. Los textos citados en orden de aparición
se encuentran en las siguientes páginas: 253, 255, 255, 242, 269-270,
277, 272, 185, 160, 284, 284, 335, 327, 327, 317, 327, 336, 389, 345,
416, 320, 327, 427, 430, 79, 79, 79, 422, 412, 358, 234, 253, 241, 344,
218, 105, 398-399, 418.
Sobre la autora:
Mary Konna. Feminista lesbiana latinoamericana. Activista por más
de 10 años, actualmente está dedicada a los estudios, a
la investigación y a la producción teórica. Nunca
ha incursionado en la literatura...pero ama a Pizarnik y a Clarice Lispector.
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Noite
Gay
Por Marcelo Santana Ferreira
“Onde queres revólver eu sou coqueiro
E onde queres dinheiro sou paixão
Onde queres descanso sou desejo
E onde sou só desejo queres não
E onde não queres nada nada falta
E onde voas bem alta eu sou o chão (...)”
(Caetano Veloso)
Bruta flor do querer. De noite, acompanho grupos de rapazes e homens mais
velhos que buscam diversão nas boates e nas ruas do Rio de Janeiro. Bebo
cerveja em copo de plástico junto a alguns homens que, dentro em breve,
subirão ao palco para fazer um show. Acendo o meu cigarro de filtro amarelo
e também me encharco de felicidade numa pista de dança, em que as músicas
mais queridas são acompanhadas por gritos, uivos, gargalhadas.
Mixórdia de pessoas e de estilos de vida. Não me canso de olhar para o
salão cheio de homens de diferentes estilos, corpos distintos, marcas
vibrantes do que convencionamos chamar de “homossexualidade”. Mas há uma
profusão de modos de vida numa só boate, corpos e gestos muito distintos
num só lugar. Nem mesmo o perfume pode ser comparado. Vou ao subúrbio
e encontro, misturados, homens com mais de trinta anos e rapazes que têm
de mostrar a identidade para entrar na boate. Dali a pouco, são rapazes
beijando outros rapazes, homens mais velhos rindo com outros amigos, mistura
de corpos na escuridão do banheiro que virou um lugar de sexo e de desejo.
Nem sempre rapazes buscam homens mais velhos. Há rapazes que se parecem
muito com os rapazes que costumo ver na academia em que faço ginástica.
A noite gay é uma festa, é uma mistura, é uma atmosfera densa demais para
receber apenas uma significação.
Ir a uma boate causa embaraço a amigos que têm a mesma idade que a minha
ou que são um pouco mais velhos. Eles se cansaram da “vida gay”, da “noite
gay”. Ficaram sérios e riem, debochados, das “bichinhas” novinhas que
lotam as boates. Estão muito enganados: não se encontram somente “bichinhas”
novinhas na boate e nem muito menos na noite. A efeminização da juventude
e dos gays não necessariamente corresponde aos gestos que os homens fazem
quando vão se divertir. Numa noite, por exemplo, um rapaz pergunta aos
amigos que acompanho se a boate em que entraríamos era uma boate de “viado”.
Um amigo, sabiamente, lhe responde que depende muito do que ele estiver
procurando, pois ele vai escutar músicas, ele vai se divertir, ele não
vai se decepcionar. Às três horas da manhã, quase quatro horas depois
que ele entrou na boate, vai embora. E não parece ter se decepcionado.
O que ele encontrou? Sei que as referências acadêmicas se retraem diante
da experiência viva e densa de uma parcela de indivíduos numa sociedade
complexa. Mas, mesmo assim, quase insisto em buscar uma imagem que me
inspire a entender os homens que se relacionam com homens na contemporaneidade.
Então, arrisco a admitir que as sensações que tive, as músicas que ouvi,
os olhos que corresponderam ao meu olhar são os instrumentos disponíveis,
por ora, para a minha compreensão. Sensações são como marcas num calendário:
elas evocam as noites em que vi pessoas buscando outras pessoas para fazer
sexo e às vezes, para namorar por um tempo. As sensações vêm acompanhadas
pela lembrança de trechos de música e, há uma em especial que me puxou
para a profundidade do que via: “Sweet Dreams” do grupo Eurythimics reatualizada
numa versão techno. Um trecho da música é obsessivamente repetido numa
noite: “Seven seas”.
Será necessário atravessar sete mares para entender do que se trata? Se
você for gay, parece que o convite é aceito imediatamente. Divertir-se
numa boate gay é muito fácil principalmente se você imaginar que é um
estrangeiro em busca de referências sobre o lugar em que você se encontra:
você entenderá algumas piadas ditas pelos artistas que sobem ao palco,
se comoverá com os relatos de pessoas que sobem ao palco para cantar uma
música evangélica para os seus amigos, rirá confuso dos artistas “caricatos”
que ou são excessivamente gordos ou excessivamente magros e usam de seu
corpo para nos divertir. Encontrar alguém numa boate gay também é relativamente
fácil: sexo descompromissado e efêmero? Quartos escuros, mas esconda a
carteira e leve camisinha. Mas, se é buscado alguém para que você possa
ligar no dia seguinte, marcar um outro encontro: faça das poucas luzes
suas cúmplices. Veja a roupa, sinta o cheiro, aperte a carne do homem.
Permita que o trecho da música o leve para o fundo.
Eu sempre me divirto, mas para além do que experimento imediatamente,
busco entender uma parte do sentido do que eu vi. Esta operação não constitui
uma cisão, mas me permite ver duplamente o que eu vivi. Inicialmente,
é preciso insistir: são pessoas diferentes umas das outras. Uma boate
cheia é um microcosmo da multiplicidade de sujeitos que buscamos reconhecer
academicamente. Se for pesquisada uma boate ou um bar na zona sul do Rio
de Janeiro, se for visitada uma boate ou um bar no subúrbio do Rio de
Janeiro, encontrar-se-ão diferenças muito marcantes de “universos”. Mesmo
assim, insistimos: “homossexualidade”. Será?
Numa noite, encontro um rapaz que vem pela primeira vez a uma boate. É
carne nova no pedaço. Mas ele sai desacompanhado. Outra noite, um grupo
de rapazes vai tecendo suas estratégias para se divertir e compartilham
várias latas de cerveja. Se estivesse numa boate “heterossexual” talvez
visse o mesmo movimento. Depois que se bebe bastante cerveja, um chiclete
de hortelã pode ser útil para melhorar o hálito. A possibilidade de sexo
no mesmo dia e já na própria boate também é possível. Mas é difícil reconhecer
quem busca o quê: ser penetrado ou penetrar? A masculinidade de alguns
homens não é o sinal suficiente para saber o que ele vai querer na hora
em que se tiver mais intimidade. Alguns homens mais velhos relatam que
os rapazes desejam mais ser “passivos”. Há uma faixa de homens entre 25
e 30 anos que insistem em ser “ativos”.
Um só nome para a pluralidade de afetos e encontros possíveis talvez empobreça
o entendimento que se queira construir sobre as sexualidades de homens
que saem com homens. Para quê dar um nome? Fico com a imagem:
No palco, a artista imita uma “bichinha” que recebeu um Exu e está
na posição ativa na relação sexual. No meio da relação sexual, a entidade
deixa o corpo da “bichinha” e ela se exaspera por estar “comendo” um sujeito.O
artista brinca com os códigos que sustentam determinadas modalidades de
sexualidade. Enquanto isto, na pista de dança, olhares são trocados e
dois homens se encaminham para um lugar mais distante do palco. Eles se
beijam, toca uma música mais conhecida e as pessoas gritam e dançam. Os
dois homens se tocam, seus pênis estão duros e seus corpos já sabem que
caminho trilhar.A camisinha é requerida, mas à pergunta: Você é ativo?
pode se dar tantas respostas que é melhor que o “querer” diga o que fazer.
Será que esta imagem pode ser inspiração para uma discussão acadêmica?
O reconhecimento acadêmico desta diversidade sexual não pode ser a simples
incorporação de um universo a um conjunto de categorias pré-articuladas.
Deve-se optar, eticamente, por submeter o conhecimento à vida. E, do conhecimento,
lançar um olhar sobre a vida que seja digno e corajoso o suficiente para
permitir uma lembrança: se o que escrevo e o que falo não servir para
a experiência anônima dos indivíduos que se esbarram numa mesma sociedade,
que pelo menos ele se aproxime da alegria, da atmosfera vibrante, da melancolia
das músicas, da intensidade dos perfumes que compuseram uma imersão naquilo
que a teoria costuma gostar de ver à distância. Se esta distância puder
ser suprimida, que se possa contribuir para o reconhecimento da especificidade
do tempo presente, de seus perigos, de suas delícias, de seus riscos,
de seus diferentes “quereres”.
Sobre
el autor
Marcelo Santana Ferreira, Doutorando em Psicologia Clínica pela PUC/RJ
E-mail: marcelo.sferreira@ig.com.br

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Erotismo,
Placer y Sociedad
Un paseo por la historia: Ayer y hoy
Por María Raguz
Erotismo, placer, sensualidad, deseo sexual, excitación,
términos que nos remiten a sensaciones, fantasías, culpas, temores, recuerdos,
valores, conocimientos, experiencia, mitos. Términos confusos y poco delineados,
como las sensaciones a las que remiten. Aunque viene de Eros, el dios
del Amor, el erotismo no necesariamente implica amor, pero si placer.
Incluso es posible el deseo sin el placer; el orgasmo sin goce; el goce
sin orgasmo, situaciones humanas que las personas sufren en silencio o
desconocen y que los sexólogos tratan de remediar. No es difícil de entender
el por qué de esta confusión.
La sexualidad humana es histórica, contextuada. Las culturas sexuales
hegemónicas se han basado en autoridades filosóficas, religiosas y médicas
y han ido construyendo nuestras nociones y políticas en torno a la sexualidad
y variándola, aunque en algunos temas los siglos parecieran no haber pasado.
La organización social –a través del parentesco y la familia- y, también,
la organización social económica han incidido fuertemente en lo más privado
del ser humano: su sexualidad, regulando el sexo, el placer y la reproducción,
incluso, las formas de expresión del amor. En esta entrega revisaremos
cómo se ha abordado el erotismo, el placer y la sexualidad desde los albores
de la humanidad hasta la conquista del Nuevo Mundo.
Las expresiones de las culturas de la sexualidad a través de los tiempos
son múltiples, desde la Prehistoria, con las Venus auriñaciences de la
prehistoria y los graffiti paleolíticos de las cuevas de Abri Castanet,
representando vulvas hace más de diez mil años. Pareciera que cuando las
sociedades eran cazadoras-recolectoras; los ciclos de la luna, identificados
con la mujer, eran de suma importancia, pero cuando se volvieron agricultores,
lo importante pasó a ser el culto al sol y los dioses, masculinos, empezando
a desvalorizarse lo femenino, como revelan estudios de los monolitos celtas
de Hedgestone. Siguen ejemplos ya de la historia, como los manuales sexuales
chinos de hace cinco mil años, o la destrucción de la momia de Nefertiti,
de toda huella de su reinado y del culto a los dioses que en el S XIV
AC ella y su esposo el Faraón impusieron, defenestrando a los antiguos
sacerdotes que rendían culto masculino al sol.
Con el sedentarismo la propiedad marcó las relaciones sociales y de género
y con el descubrimiento del Bronce, entre mil y dos mil años antes de
Cristo, se inventaron las armas, se dieron las guerras y se dio un dominio
masculino. Hacia el 1300 AC se difundió el Decálogo de Moisés, con los
mandamientos como no fornicarás, o no desearás a la mujer de tu prójimo,
aunque el Rey Salomón, siglos después, tuviera 700 parejas estables además
de innumerables amantes.
El manual Taoísta del S II que afirmaba que después de 1,200 relaciones
sexuales el emperador se volvía inmortal. Entre los griegos antiguos,
el criterio de tres coitos seguidos marcaba haber llegado a la juventud.
El hedonismo grecorromano aceptaba, parcialmente, la homosexualidad, la
bisexualidad y el aborto; la etimología de fornicación, derivaba del acto
de las trabajadoras sexuales romanas bajo los arcos de puentes (forno)
y acueductos. En la antigua India, los templos tenían ganancias generadas
por las sacerdotisas al hacer el amor. La poligamia se prohibió en la
Roma antes de Cristo.
Otros ejemplos de cultura, religión y sexualidad aparecen en el Antiguo
Testamento que partía de la tradición hebrea, con el sexo enmarcado en
el matrimonio pero considerado tanto una obligación como una alegría;
los 52 textos antiguos del Siglo I en Nag Hammardi, Egipto, que evidencian
las diferentes creencias y prácticas de los diferentes grupos cristianos,
considerados heréticos en el S III, escondidos en parte por los monjes
benedictinos y quemados en el S V para dar lugar a la unión del Antiguo
y Nuevo Testamento en la Biblia e institucionalizar una sola verdad, una
ortodoxia que unió a los Cristianos frente a las persecuciones pero determinó
una sola moral sexual y la intolerancia a versiones discrepantes.
Esta moral sexual se vio fuertemente determinada por las creencias del
S IV mantenidas por San Agustín, el denominado padre de la Iglesia Católica,
quien afirmaba que nada hacía descender la mente viril de las alturas
a tal grado, como las caricias de una mujer, y se sentía culpable de su
experiencia sexual pasada. Para él la sexualidad y la procreación eran
inseparables y sostenía que "el deseo sexual es una tendencia
animal pero podría ser justificada y orientada hacia el bien, siempre
y cuando el acto sexual tuviera como finalidad la procreación".
Con la Biblia, se exhortaba a crecer y multiplicarse, siendo el sexo reproductivo
una obligación y el sexo sin hijos, una ofensa o una maldición. Se condenaba
así la prostitución, la homosexualidad y la masturbación.
La mujer fue idealizada y admirada, pero circunscrita al rol mujer-madre,
santificando sus atributos maternales, nurturantes, de cuidado y expresividad
de sentimientos positivos. La Biblia secreta de Santo Tomás dice que
"María debe ser excluida por ser mujer, no merecedora de la Vida".
Para historiadores de las religiones, Eva era una diosa de la fertilidad
reverenciada, que luego fue maldita al acusársele de causar la muerte
y el mal. Los grupos de poder político y religioso quedaron limitados
a hombres y con la instauración del patriarcado reinó la dominación de
la mujer bajo el pretexto de la protección de la familia. Aún hoy los
Judíos Ortodoxos agradecen a su dios no haber nacido mujeres y en la Muralla
de las Lamentaciones se segrega a mujeres de hombres.
En la polarización hedonismo-ascetismo el Cristianismo encontró tierra
fértil para desarrollarse y se creó la ética sexual cristiana. San Pablo
postuló a la soltería y la abstinencia como ideales y, para la mayoría
que no puede lograrlos, propuso el matrimonio como forma de legitimar
la pasión y la lujuria. La figura bíblica de Eva se asociaba con el pecado
original, pagando con los dolores de parto.
El matrimonio dejó de ser una cuestión civil cuando la Iglesia asumió
su jurisdicción y estableció reglas para la conducta sexual, en base a
la concepción del sexo como pecado. Con la fusión de culturas las ideas
orientales sobre el espíritu y la vida después de la muerte produjeron
ansiedad sobre el comportamiento en la tierra y el ascetismo cobró fuerza.
La religión Canaanita pre-judaica que había prevalecido venerando a dioses
de ambos sexos, con diosas de la fertilidad y sacerdotisas, tuvo que cambiar
para dar lugar a religiones monoteístas como el dios judío Jahvé, masculino.
En Turquía, Egipto, Africa, Roma, las Islas del Pacífico o las llanuras
de Norteamérica, los dioses dejaban de ser masculinos y femeninos o bisexuales
y se daba paso a un dios masculino de las religiones nacidas en el Cercano
Oriente: el Judaísmo, el Islamismo o el Cristianismo (excepto los Cristianos
Gnósticos, cuyo dios es tanto hombre como mujer). La dominación del hombre
tenía que reflejarse también en la religión.
La dominación masculina puede también rastrearse a la invasión de los
Rusos en Asia, Europa, de India a Irlanda. Los Indoeuropeos modelaron
los roles masculino y femenino. Se trataba de ganaderos peleadores, guerreros,
con una economía basada en la fuerza, la dominación, la violencia, el
machismo. Las mujeres eran casi esclavas, marginadas de la educación
y las esferas de decisión y hasta sujetas a ritos de violación sexual.
En esas épocas, el Papa León VII murió fornicando con una mujer adúltera
en el 939; el Papa Clemente II en 1046 cobraba impuestos a las prostitutas
aún muertas, que consistían en ceder la mitad de su herencia a la Iglesia;
y el Papa Juan XII fue asesinado en 1334 a manos de un marido celoso que
lo encontró con su mujer. El primer cinturón de castidad europeo data
de ese S XII y protegía la castidad de la mujer.
El amor romántico vino a reemplazar los acuerdos matrimoniales entre familias.
Un tratado medieval recomendaba, para combatir la lujuria, meter un dedo
en agua hirviendo o caminar desnudo por un campo de ortigas. En la Edad
Media se descubrió que los exploradores en sus barcos no caían al vacío
acabándose el mar en un mundo de monstruos sino que podían extender los
imperios surcando los mares. El descubrimiento de la imprenta permitió
la difusión de la Biblia en el S XV. Bajo los Reyes Católicos, España
descubrió América y la sífilis comenzó en Europa en 1493, a la vuelta
de Colón.
Con la conquista Europea de Latinoamérica en el S XV la colonización instauró
un sistema de dominación social y sexual, de clases, razas y géneros.
La colonización difundió el modelo del machismo, el uso y abuso de las
mujeres sin ninguna responsabilidad por la prole. Con la colonización
del Nuevo Mundo se normó una adherencia estricta al sexo matrimonial;
el sexo no era un resultado de la naturaleza malvada del hombre, sino
un mandamiento divino. Con los conquistadores vino la evangelización;
los españoles vinieron con la Biblia en la mano a enfrentarse a un mundo
cultural distinto, que no entendían ni respetaban, considerar a los indígenas
como seres humanos sin alma, aunque algo más valorados que los negros
a los cuales ni se trataba de adoctrinar. La Inquisición y las Cruzadas
fueron herramientas de conversión.
En el Perú Colonial la educación en sexualidad se volcaba hacia lo religioso
y no era explícita y la vergüenza relacionada con el tema sigue presente,
especialmente en el mundo adulto. El choque de religiones que se produjo
en el Perú a raíz de la Conquista Española impactó en la mitología andina
y selvática. La evangelización trajo consigo la idea de pecado. Los "confesionarios"
eran libros que los sacerdotes debían emplear con los indígenas, conteniendo
una rígida moral sexual, y que se siguieron usando hasta en la etapa de
la República.
La sexualidad andina se expresa aún hoy en rituales y en la permisividad
de sus fiestas calendarias. En carnavales y asociado con la bebida, las
conductas de sexualidad fuera del matrimonio son aceptadas socialmente
y se encuentran ritualizadas; los diablillos alientan el desenfreno y
triunfan, momentáneamente, las fuerzas subterráneas. Sin embargo, la aventura
no es aceptable con personas extrañas a la comunidad, ya que se asocian
con infertilidad, atentando contra el ideal de la endogamia que sólo se
supera cuando una alianza matrimonial exógama enriquece a la comunidad.
Tampoco se acepta el incesto.
Para reforzar los temores frente a la exogamia se tienen creencias y relatos
de las nefastas consecuencias de que un joven o una joven se unan a monstruos,
bestias y demonios con apariencia de extranjeros. En la cosmovisión andina
los términos de "runa" y "warmi", que
definen a hombre y mujer, sólo se aplican a personas del mismo medio social,
ya que los de fuera no tienen actividad sexual socialmente reconocida.
Se llama "yana" a la pareja, hombre o mujer, que es lo
oscuro que complementa al yo, lo claro, ambas partes sometidas una al
otro inequitativamente, definiéndose una al otro en un tenso equilibrio.
El pensamiento andino sexualiza al mundo y todo lo ve en términos de complementación
de los sexos: los dioses, la naturaleza. Hasta la Virgen es vista como
esposa de Jesucristo y los santos tienen pareja. En esta visión tan abiertamente
sexualizada de la realidad, llama la atención que se diferencie entre
sexualidad desmedida y moderada: los humanos tendrían sexualidad moderada;
los seres de mundos inferiores, diablos y diablesas, tendrían sexualidad
desmedida.
Mitos recogidos por misioneros cristianos ilustran la conceptualización
del mundo en poblaciones nativas amazónicas. Por ejemplo, los mitos amazónicos
Cashinaguas explican cómo el origen del sexo asociando el sexo femenino
con una llaga que un hombre joven descubrió cómo curar: teniendo relaciones
sexuales como los monos, aunque muriera con el pene partido luego de hacer
una demostración pública con todas las mujeres de la comunidad. Otros
mitos explican el olor rancio del sexo femenino por una pareja en la
que la mujer era casada, que quiso que no descubrieran que habían tenido
relaciones y quisieron disimular el olor frutal y floral de la vagina
con una papaya rancia; de ahí que se perciba un olor característico luego
de tener sexo. Otro mito más explica que la vergüenza, la violencia y
todos los males tienen su origen en que en vez de tener relaciones sexuales
sin vergüenza y públicamente, como hacían los antepasados y los animales,
el pudor apareció cuando una mujer, como Eva, tentó a un hombre con la
fruta de la shapaja que nadie comía, pero luego se avergonzó y tuvieron
sexo a escondidas, generando un empeoramiento del clima, guerras y toda
suerte de enfermedades y males.
Otra leyenda selvática relata que unos Aguarunas que se creían perdidos
y que iban a morir, se animaban unos a otros a hablar de "cosas
vergonzosas", y hablaban de cómo era "la abertura amplia
y el clítoris bien grande" de sus mujeres, lo que los hacía felices.
Todos "contaron sin vergüenza" sobre sus mujeres, pero luego
encontraron el regreso a casa y como todos sabían cómo eran las mujeres
de los demás, se engañaban mutuamente. Así, engañándose, no podían convivir
y esa es la razón por la cual los aguarunas de separaron y viven diseminados
por la Selva. Otro mito Aguaruna explica las relaciones rápidas y ocultas
de los humanos porque los hombres se habrían cambiado los penes con los
perros para evitar ser muerto por ser encontrado copulando con una mujer
casada. Antes “el pene se les pegaba, como los perros”, teniendo relaciones
de larga duración y a la vista de todos; ahora ya podían esconderse.
Otro ejemplo muestra las creencias sobre la fecundidad en el Amazonas.
Según un mito Aruaco de los Machiguengas, la Luna era masculino y vivía
en la Tierra, casada con una bella joven. Al igual que en el mito persa
del ángel que echa tierra al ovario de la mujer para fecundarla, en este
mito la Luna echó tierra al vientre de su esposa que se bañaba en el río,
con la misma finalidad, pero ella se molestó y le tiró barro, por lo que
la Luna la mató aunque revivió al hijo en su vientre, se comió la mitad
de la mujer muerta, en vez de todo el cuerpo, como era el ritual, y las
manchas de la luna son esos restos que no comió y el hijo, al crecer,
se volvió el Sol. Otro mito Aguaruna relata cómo la esposa glotona del
dios Luna quiso seguirlo al cielo por un hilo y debido a su embarazo y
la carga de todas las cosas pesadas del hogar, lo hacía lentamente, por
lo que el marido la descubrió y cortó el hilo, haciéndola caer a la
tierra, reventando la barriga con toda la comida que tenía adentro que
el dios convirtió en barro y, desde esta maldición, la mujer hace ollas
de barro y cocina.
Otros mitos amazónicos, Huambisas, Jíbaros y Aguarunas, narran que los
principales dioses del sol y la luna son ambos masculinos, nacidos como
huevos del vientre de una mujer vieja que un antropófago mató, y estos
dioses tenían el poder sobre sus mujeres. Por celos entre estos dioses
masculinos se habría terminado la poliandria y se prohibió estar con la
esposa de otro (no el esposo de otra), pudiendo los maridos celosos matar
a su mujer de solo asaltarles la duda, siendo siempre la mujer asociada
con el diablo por infiel. Aún hoy la violencia contra la mujer en la Selva
rural se asocia, básicamente, a temas de infidelidad por ambas partes.
Tanto en las narraciones andinas como en las selváticas prevalece una
analogía del falo con la serpiente, culebra o gusano, a los que se les
atribuye un poder fertilizante, viril y vivificador, y se les teme porque
pueden violar y agredir. Siempre es una mujer joven y hermosa que se encuentra
con una culebra disfrazada y un joven extranjero le propone ser amantes
y ella accede, escondiéndolo en un hueco bajo el moledor de maíz, alimentándolo
de día y siendo amantes en la noche, a escondidas, hasta que sale embarazada
y los padres matan a la culebra, abortando ella culebritas o sapitos (símbolo
del sexo desordenado y prohibido) y casándose luego con alguien del pueblo.
En versiones más modernas más que una serpiente es un amante en forma
de falo.
Un mito Aguaruna habla de gusanos que se introducían en el cuerpo de la
mujer y la embarazaban, hasta que la madre tapó "el numpijí"
de la mujer, para que ésta tenga relaciones sexuales sólo con hombres.
Otra versión, Capanahua, alude a que la madre descubre que su hija casada
se sentaba sobre un moledor, debajo del cual escondía un gusano, y movía
las caderas y decía "una hormiga me está picando"; la
madre mató al gusano pero la hija tuvo un hijo de éste. La joven que muele
maíz, símbolo de fertilidad, lo disfruta, porque lo hace sentada directamente
sobre el piso, con el sexo rozándolo, “como no debe hacerse”. Del
hueco sale una lombriz y la penetra, lo que le ocasiona placer; el placer
es secreto y ella alimenta al gusano hasta que se embaraza y da a luz
un animal o un bebé-gusano. En unas versiones los padres matan al gusano,
en otras, no lo encuentran. En otras versiones no se embaraza, sólo que
los padres la descubren disfrutando el placer de moler maíz. En narraciones
más prevalecientes en la Selva que en el Ande, el marido descuida a la
mujer, simbolizado en que no es buen cazador, y la mujer sola es seducida
por un felino que le promete abundante caza. Se va con el puma, jaguar
o tigre, quien la satisface oralmente, hasta que se harta de convivir
con él y comer carne cruda y vuelve a la comunidad que la ayuda a matar
al tigre y comérselo. Si han tenido hijos, se comen a los hijos.
En la versión andina se trata de un hombre sodomizado por un puma, gozando
de la relación bestial. Este relato puede remontarse a un huaco pre hispánico
Mochica. Hay otro huaco de esa cultura con una mujer en coito con un
puma, en una postura de cuatro patas que no es usual de las representaciones
en los ceramios de conductas sexuales humanas. Igualmente, hay otro huaco
de la misma procedencia de un hombre cuyos genitales están siendo devorados
por una serpiente. En estos amores con animales, cuando se trata de una
mujer el animal procura amores bestiales, la mujer se bestializa; cuando
es hombre, lo devora parcial o totalmente, perdiendo su identidad; otra
constante es que la mujer quiere algo sagrado o mágico; el hombre, algo
profano.
Otros relatos andinos y amazónicos muestran la creencia de que existen
espíritus y monstruos codiciosos del sexo humano, que violarán a la mujer
o seducirán hasta enfermar y disolver al hombre (chupándole la energía
vital, disolviéndole los huesos que se supone se forman del semen). Así,
el enano de la cascada viola a las jóvenes; la laguna con forma de doncella
seduce al joven tragándoselo en su vagina.
En la pareja andina las primeras relaciones con el otro sexo se darían
de manera espontánea, furtiva, apasionada; se recurre a la analogía con
las llamas, que los indígenas creen están en perpetuo celo. Si bien esta
pasión "salvaje" tiene visos de prohibida, la sociedad sólo
se opone formalmente, ya que hay una aceptación de fondo a los amores
juveniles fugaces. Para la pareja institucionalizada, por el contrario,
se espera una sexualidad domesticada, mesurada. Este no sería el caso
de las personas de la Selva, quienes no esperan que la pasión se apacigüe,
pero los ritos selváticos también muestran un rechazo a la pasión enceguecedora
y la presión social para preservar un orden a través de los ritos ceremoniales
de los raptos y las guerras ocasionadas por los amores furtivos.
En un mito, un cazador se enamora de su presa y la prefiere a las mujeres,
llegando a transformarse en un animal, y, dependiendo de la versión, puede
volver a ser humano y reintegrarse a la sociedad o no. En cuanto a los
mitos del incesto, que incluye a primos, ahijados y compadres, depende
del grado del incesto que haya mayor o menor tolerancia, pero las reacciones
no pasan de murmullos y aislamiento social, pero la comunidad piensa que
se ha perturbado el orden cósmico y asociará el evento con cualquier desgracia
natural o accidente. La cabeza voladora es la forma que se le asigna al
monstruo del incesto, es la cabeza de la persona incestuosa que, descabezada
pero viva, duerme en brazos de su amante. También puede convertirse en
llama de dos cabezas o en mula que escupe fuego (la Runamula de
los selváticos es la pareja infiel). El infiel que muere es un "condenado"
que no puede terminar de morir porque amó a quien no debía (o era avaro,
muy apegado a las cosas) y vaga por la tierra asustando a los humanos.
Lo sexualmente prohibido es asociado con suciedad: la cabeza voladora
invita a comer deyecciones o escupe saliva inmunda. El incesto es visto
como sucio, como algo que bestializa, que desintegra, que mata en vida,
así como algo que afecta el orden social y natural.
Un mito de Huarochirí, que fuera importante provincia andina en cuyas
tierras bajas los españoles fundaran Lima, se refiere al nacimiento de
Pariacaca, dios Montaña que reemplaza al Sol, se vincula al adulterio
de la mujer de un gran adivino y dios. Este mito habla del adulterio de
la mujer, que dio de comer a un hombre un grano de maíz tostando que saltó
a su vagina y cayó dentro de su sexo, y de serpientes y un sapo que viven
bajo un moledor de maíz y destruyen el orden de la casa y enferman al
esposo.
En sociedades tradicionales el mundo es dominado por hombres, sea el Inca,
el español o el presidente, sea el chamán, el médico tradicional o el
cura, sean los dioses del Incario o el Dios del Catolicismo. El chamán
o curandero amazónico, por ejemplo, media entre el mundo de los dioses
y espíritus y el de los hombres y, como el mítico Inca o el curandero
andino, tiene una luz interior y una aureola que derivan del poder creador,
seminal, del dios Sol. Al chamán se le percibe como un falo que penetra
el mundo sobrenatural, el mundo de los espíritus que es visto como un
útero, por lo que el chamán tiene poder fertilizante, de dador de vida
o de muerte. Puede transformarse en jaguar y atacar a las mujeres y devorar
hombres. Sus instrumentos, como su vara sonajera y un cilindro de cuarzo
llamado "pene del Sol" y relleno del psicotrópico rapé
que, se cree fue la eyaculación del dios Sol cuando su hija, prendada
incestuosamente de él, le acarició los rayos masturbatoriamente, son vistos
como fálicos y le son dados por el mensajero del Sol, el trueno, bajo
la forma de un jaguar. El chamán usa el rapé y la ayahuasca para nutrir
su poder.
La ayahuasca otro psicotrópico, se cree tuvo su origen en el embarazo
de la primera mujer que habitó la tierra, embarazada por la mirada del
Padre Sol, dueño de la ayahuasca y del poder sexual. Cuando nació el
hijo todos se disputaban la paternidad y despedazaron al niño; de cada
pedazo nació una variedad de la ayahuasca.
Otro mito nuevamente releva los símbolos fálicos, el del Sol viajando
por el río e introduciendo su vara sonajera en sitios propicios, de donde
nacen los grupos humanos, relacionado con el mito de Manco Capac y Mama
Occllo, su hermana, hijos del Sol que fundaron Cuzco, capital del Imperio
Incaico donde se hundió su vara, tienen los mismos componentes de incesto
y poder fálico. El Inca, hijo del Sol y portador de un cetro de oro cubierto
de figuras de maíces, símbolo de fertilidad seminal, intermediaba entre
los mundos, era permitido el incesto, tenía una vinculación con el dios
Jaguar. Curiosamente, la tradición egipcia antigua también atribuía la
creación a la masturbación del dios Sol, Aton-Ra, cuyo pene divino creó
los ríos que acunaron a las civilizaciones. Hay distintas culturas paganas
que consideraban el semen un ofrecimiento a los dioses.
A modo de conclusión
La mitología aquí revisada revela el sincretismo cultural en la construcción
de la sexualidad. Vemos que las creencias occidentales llegaron a este
Continente y fueron re-interpretadas enriqueciendo los imaginarios.
Lo que es más sorprendente aún, encontramos que el ayer está vivo hoy,
quizás de otras maneras, pero las tensiones de la expresión de la sexualidad
y el control social siguen vigentes. La infidelidad, la masturbación,
la homosexualidad, el placer, siguen tiñéndose de mitos, temores, culpas,
vergüenza y secretismo; seguimos, como los Aguarunas, escondiendo nuestra
intimidad pero, a la vez, este erotismo lúdico está tan vivo como antes
y alimenta nuestras fantasías y vínculos.
Seguimos las mujeres temiendo que el hilo de plata se rompa al tratar
de subir al cielo, pero como Nefertiti, estamos en el proceso de lograr
sentarnos al lado del Sol y volver a los dioses masculinos y femeninos
o, mejor aún, andrógenos.
La historia continúa con el cisma de la Iglesia Católica y Romana, el
descubrimiento de los planetas y la cirugía moderna, y el enfrentamiento
de ciencia y religión, y todo lo que siguió. Pero ésa es otra historia
y otra interpretación de la sexualidad, en el entretejido de las sociedades
y culturas a lo largo de la historia humana.
Sobre la autora:
María Ragúz; es Doctora en Psicología Social, Especialidad de Género
(Holanda). Maestría en EEUU en Psicología Educacional. Profesora principal
de la Pontificia Universidad Católica del Perú. Integra varios rosters
internacionales de consultores y expertos en género, derechos y salud
sexual y reproductiva, en particular, adolescente y juvenil. Dirige la
ONG REDESS-Jóvenes.
e-mail: mraguz@pucp.edu.pe
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